Especialista alerta: usar FGTS para dívidas não resolve, apenas gera votos
FGTS para dívidas não resolve, apenas gera votos, diz especialista

Endividamento familiar atinge níveis críticos no Brasil

O cenário econômico brasileiro apresenta um quadro alarmante de endividamento das famílias, com consequências visíveis no cotidiano da população. Segundo análise do economista-chefe da Fórum Investimentos, Bruno Perri, aproximadamente um terço da renda familiar está atualmente comprometida com o serviço da dívida, criando um impacto direto no bem-estar e no consumo.

As causas multifacetadas do problema

Perri destaca que a situação atual resulta de uma combinação perversa de fatores. Juros elevados mantidos por período prolongado se somam a uma economia com crescimento modesto, apertando progressivamente o orçamento doméstico. O economista explica que muitas famílias se endividaram durante a pandemia, aproveitando taxas mais baixas, mas não consideraram que essas dívidas são flutuantes e acompanham a subida da Selic.

"O brasileiro costuma olhar apenas o valor da parcela, ignorando o custo total do financiamento", alerta Perri. "Quando o consumidor recorre ao rotativo do cartão ou ao cheque especial, os juros podem alcançar patamares exorbitantes de até 250% ao ano".

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Novo elemento agravante: apostas online

Um fator recente que tem drenado recursos das famílias, segundo o especialista, é o crescimento das apostas eletrônicas. "Essas atividades retiram dinheiro significativo da economia real e já impactam setores tradicionais como o varejo de supermercados", afirma Perri. Ele defende que a solução para este aspecto específico requer medidas mais profundas, incluindo o fortalecimento de programas no Sistema Único de Saúde para atender pessoas com dependência de jogos online.

A proposta polêmica do FGTS

No contexto desse endividamento generalizado, surge a proposta governamental de permitir que trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos utilizem recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para quitar dívidas. Perri reconhece que a medida oferece alívio imediato para o orçamento familiar e pode reduzir temporariamente os índices de inadimplência.

"A ideia central é utilizar o FGTS para limpar o nome dessas pessoas", explica o economista. No entanto, ele faz ressalvas significativas sobre essa abordagem.

Críticas ao desvirtuamento do fundo

"Há um claro desvirtuamento do objetivo original do FGTS", argumenta Perri. Ele lembra que o fundo foi criado para financiar projetos de longo prazo essenciais para o desenvolvimento nacional, como infraestrutura, saneamento básico e habitação popular.

O especialista acrescenta que o trabalhador já enfrenta prejuízos com a baixa remuneração do fundo. "O FGTS frequentemente rende abaixo tanto da inflação quanto da taxa Selic", observa. Utilizar esses recursos para resolver problemas de dívidas de curto prazo, segundo sua análise, enfraquece um instrumento financeiro importante para o crescimento econômico sustentável.

Motivação política por trás da proposta

Bruno Perri vai além da análise técnica e aponta uma possível motivação política por trás da iniciativa. "Para o governo, a intenção parece ser ficar bem com o eleitorado de baixa renda e garantir apoio nas urnas", avalia o economista. Ele sugere que a medida funciona mais como uma estratégia eleitoral do que como uma solução estrutural para o endividamento crônico das famíbras brasileiras.

O especialista conclui que criar linhas de crédito adicionais ou liberar recursos do FGTS para pagamento de dívidas não resolve o problema de fundo. A solução, em sua visão, requer abordagens mais abrangentes que incluam educação financeira, controle de juros abusivos e políticas econômicas que estimulem o crescimento sustentável da renda familiar.

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