Dólar fecha a R$ 5,001 com Fed dividido e guerra no Irã elevando petróleo
Dólar sobe a R$ 5,001 com Fed dividido e guerra no Irã

O dólar registrou alta de 0,39% nesta quarta-feira (29), encerrando o dia cotado a R$ 5,001, retomando o patamar de R$ 5 após um aumento da aversão ao risco nos mercados no final da tarde. A decisão do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, de manter a taxa de juros inalterada na faixa entre 3,5% e 3,75%, era amplamente esperada, mas surpreendeu pelo placar de 8 votos a 4, algo que não ocorria desde outubro de 1992.

Divisão interna fortalece dólar globalmente

A divisão interna no Fed fortaleceu o dólar no cenário internacional. O índice DXY, que compara a moeda americana a uma cesta de seis divisas fortes, registrou ganhos de 0,3%, alcançando 98,96 pontos. O encontro também marcou a despedida do presidente Jerome Powell do cargo, que anunciou que continuará no Fed como dirigente por tempo indeterminado, citando que "eventos recentes não deixaram outra escolha", em referência aos embates do governo de Donald Trump com a instituição.

Impacto na Bolsa e dissidências

A Bolsa refletiu o cenário e caiu 2,05%, fechando a 184.750 pontos. A dissidência de três dirigentes nesta reunião — Beth Hammack, Neel Kashkari e Logie Logan, presidentes do Fed de Cleveland, Minneapolis e Dallas, respectivamente — levantou uma bandeira amarela para o mercado. Embora tenham votado a favor da manutenção dos juros, eles discordaram da inclusão de um "viés de afrouxamento" no comunicado, defendendo uma comunicação mais agressiva no combate à inflação (hawkish). Stephen Miran, diretor indicado por Trump, votou novamente a favor de um corte de 0,25 ponto percentual, sem surpreender.

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"Com as dissidências hawkish, está claro que teremos na próxima reunião uma discussão mais robusta sobre os próximos passos da política monetária", afirmou Aroop Chatterjee, estrategista do Wells Fargo. "Isso dá força à perspectiva de menos cortes este ano, conforme os riscos inflacionários aumentaram."

Petróleo em alta e guerra no Irã

Com os preços do petróleo em alta vertiginosa desde o início da guerra no Irã, autoridades do Fed já expressaram preocupação com a possibilidade de o choque se traduzir em inflação mais alta nos próximos meses, o que levaria à manutenção dos juros por mais tempo ou, no cenário mais extremo, à retomada do ciclo de aperto monetário. A guerra foi citada pelo Fed no comunicado oficial: "Os acontecimentos no Oriente Médio contribuem para um alto nível de incerteza quanto às perspectivas econômicas. O Comitê está atento aos riscos para ambos os lados de seu duplo mandato [máximo emprego e inflação de 2% no longo prazo]."

O petróleo voltou a tocar o patamar de US$ 119 o barril nesta sessão, em meio às negociações estagnadas entre EUA e Irã e o contínuo bloqueio do Estreito de Hormuz, via marítima responsável por um quinto do transporte global de petróleo. Antes da campanha de bombardeio israelense-americana contra o Irã, a cotação era de cerca de US$ 70. O repasse já atinge o bolso dos consumidores norte-americanos, que viram a gasolina subir para a média de US$ 4 o galão (R$ 20 por três litros).

Expectativas de inflação

A expectativa é que os próximos dados de inflação, sobretudo o PCE (Índice de Preços para Despesas com Consumo Pessoal, métrica favorita do Fed), já tragam reflexos dessa disparada. Por enquanto, os dados recentes continuam a mostrar que a economia dos Estados Unidos está sólida. "Tanto o comunicado quanto a fala de Powell na entrevista coletiva reforçaram que o Fed está em uma posição confortável para esperar novos dados antes de tomar uma nova decisão, e Powell disse que mudanças no guidance gerariam ruídos que o comitê preferiu evitar", disse Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.

O mercado vê poucas chances de o Fed reduzir a taxa de juros neste ano, a despeito da provável pressão sobre o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, a partir de junho, caso seu nome seja aprovado entre os parlamentares dos EUA. Ele foi escolhido por Donald Trump em meio à cruzada do presidente por juros mais baixos. Powell, nomeado por Trump no primeiro mandato, resistiu à pressão do republicano no último ano, mantendo as decisões de política monetária ancoradas nos dados econômicos.

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Impacto global e Selic

Juros mais altos nos EUA costumam ser uma má notícia para os mercados globais. Como a economia norte-americana é a maior do mundo, a renda fixa de lá é lida como um investimento praticamente livre de risco, o que tira a atratividade de outros ativos mais arriscados. "Isso tende a sustentar um dólar relativamente mais forte e aumenta a pressão sobre ativos de risco, principalmente empresas de tecnologia e companhias mais dependentes de financiamento para crescimento, fluxo de caixa e novos investimentos", disse Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos. "Para o investidor, o impacto é uma leitura de maior seletividade. Juros norte-americanos elevados reduzem o apetite global por risco, pressionam bolsas, encarecem o custo de capital e tornam os títulos de renda fixa dos Estados Unidos mais competitivos frente a outros ativos."

O Copom (Comitê de Política Monetária) anunciou na tarde desta quarta-feira (29) o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,5% ao ano. Na avaliação de economistas ouvidos pela Folha de S. Paulo, o comportamento da inflação corrente, a piora nas expectativas e a alta nos preços do petróleo tornam o ambiente mais desafiador e exigem maior cautela por parte do comitê. Na prática, isso deve se traduzir em um ritmo de cortes de juros mais lento ao longo do ano e um ciclo de queda da Selic mais curto do que o projetado pelos agentes econômicos antes da guerra.

Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, disse que a piora significativa das expectativas de inflação até 2028 reforça a avaliação de que haverá menos espaço para corte de juros do que se imaginava antes da guerra. O banco revisou para cima sua projeção para a taxa Selic ao término do ciclo, de 12,25% para 13%.