Americanas busca encerramento antecipado da recuperação judicial após balanço positivo
A Americanas solicitou formalmente à Justiça o encerramento de seu processo de recuperação judicial na noite desta quarta-feira (25), apenas dois anos e um mês após a homologação do plano. O movimento, considerado antecipado frente à média nacional de três anos e meio a cinco anos, foi motivado pela necessidade de ampliar limites de crédito junto a fornecedores e bancos - algo possível apenas para empresas fora do regime especial.
Crescimento operacional impulsiona decisão estratégica
"Os números do balanço chamaram nossa atenção e culminaram nessa decisão de antecipar o pedido", afirmou o CEO Fernando Soares, de 47 anos, em entrevista exclusiva. O executivo destacou o aumento de 7,8% nas vendas "mesmas lojas" no quarto trimestre de 2025, indicador crucial que mede crescimento orgânico sem abertura de novos pontos de venda.
Nas lojas físicas, responsáveis por impressionantes 93% do faturamento total, as vendas cresceram 4% no período. Paralelamente, a empresa registrou redução significativa de 18,1% nas despesas gerais e administrativas. "É uma declaração importante para o mercado e nosso time de que é hora de mudar de fase no jogo", completou Soares.
Desempenho financeiro misto revela desafios persistentes
O balanço anual de 2025 apresentou resultados contraditórios. Enquanto as vendas brutas consolidadas caíram 9% para R$ 17 bilhões e a receita líquida recuou 1,2% para R$ 12,3 bilhões, o Ebitda ajustado ex-IFRS 16 (que considera aluguéis) saltou 156,3%, alcançando R$ 277 milhões.
Entretanto, especialistas alertam para fragilidades estruturais. André Pimentel, sócio da Performa Partners, aponta que sem receitas não recorrentes de R$ 1,2 bilhão - incluindo créditos tributários e renegociações contratuais - o Ebitda ex-IFRS 16 seria negativo em R$ 912 milhões. "Um Ebitda negativo indica que a operação não gera caixa suficiente para cobrir custos diretos", explica o consultor.
Dívida e liquidez preocupam analistas
Os números revelam pressões financeiras consideráveis. A dívida bruta aumentou R$ 213 milhões, totalizando R$ 1,99 bilhão, enquanto as disponibilidades totais caíram R$ 300 milhões para R$ 2,48 bilhões. Como resultado direto, o caixa líquido sofreu redução de 51%, ficando em R$ 488 milhões.
"Como um negócio desses pode se manter de pé?", questiona Pimentel, que participou da reestruturação da Americanas nos anos 1990. A empresa encerrou 2025 com prejuízo de R$ 271 milhões, contrastando fortemente com o lucro de R$ 8,3 bilhões em 2024, obtido principalmente através de efeitos contábeis da reestruturação de dívidas.
Transformação do modelo de negócios
A trajetória da Americanas reflete profunda transformação estratégica. Após o escândalo contábil de R$ 25,3 bilhões que levou à recuperação judicial em janeiro de 2023 - quando foram declaradas dívidas de R$ 43 bilhões - a empresa abandonou gradualmente sua posição de liderança no varejo online de eletroeletrônicos.
Atualmente, concentra esforços no modelo baseado em lojas físicas de conveniência, fechando mais de 400 unidades durante o processo de recuperação. "É uma empresa ainda em busca de um conceito, de uma proposta de valor", avalia Eugênio Foganholo, da Mixxer Desenvolvimento Empresarial.
Perspectivas divergentes sobre o futuro
Enquanto alguns especialistas expressam cautela, outros enxergam sinais positivos. Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, destaca que "o parque de lojas da rede é muito bom" e mantém alto tráfego, especialmente em categorias como bomboniere, higiene e beleza.
"Eles trabalham muito bem com ampliação de mix em categorias sazonais como Páscoa, Natal, volta às aulas e Dia das Crianças", observa Serrentino, acrescentando que a rede está "retomando gradualmente a confiança dos fornecedores". O consultor resume: "Acredito que saíram da UTI, mas ainda têm longa reabilitação pela frente".
Processo acelerado frente à média nacional
Se aprovada pela Justiça, a saída da Americanas representará caso excepcionalmente rápido. Dados do Observatório da Insolvência indicam duração média de três anos e meio a cinco anos para processos de recuperação judicial no Brasil, contados a partir da homologação.
"O prazo depende da complexidade do caso, número de credores e efetivo cumprimento do plano", explica o advogado Filipe Denki, da Veritas Administração Judicial. "Caso se confirme, terá sido processo bem rápido", completa, lembrando que a Oi permaneceu cerca de seis anos em sua primeira recuperação judicial.
Mesmo com possível saída antecipada, a Americanas manterá obrigações financeiras substanciais. O plano aprovado estabelece prazo de pagamento de 20 anos aos credores, significativamente acima da média nacional de 10 anos para grandes empresas em recuperação judicial.



