Operação de R$ 15 bilhões tenta conter rombo, mas especialistas veem solução incompleta
O Banco de Brasília (BRB) anunciou nesta terça-feira, 21 de abril de 2026, uma operação de até 15 bilhões de reais para tentar conter um rombo bilionário associado à compra de carteiras de crédito do Banco Master. A estratégia envolve a transferência desses ativos para um fundo de investimento estruturado em parceria com a Quadra Capital e integra o plano de capitalização da instituição, que precisa ser concluído até 5 de agosto, prazo fixado pelo Banco Central.
Medida avança, mas está longe de resolver problema estrutural
Para analistas ouvidos por VEJA, a iniciativa representa um avanço, mas está longe de equacionar o problema. O banco tenta montar uma solução para cobrir perdas que, segundo informações de bastidores, podem variar entre 12 bilhões e 60 bilhões de reais. A origem está na aquisição de cerca de 30 bilhões de reais em carteiras de crédito do Banco Master, pelas quais o BRB desembolsou aproximadamente 12 bilhões, além de um ágio de 2,4 bilhões.
Parte relevante desses ativos, no entanto, não teria lastro comprovado. Os números ainda são preliminares, já que o balanço final não foi divulgado. Nesse cenário, os 15 bilhões previstos na operação podem ter peso relevante, mas são insuficientes, por si só, para garantir a recomposição financeira do banco.
Estratégia inclui múltiplas frentes, mas apenas venda de ativos avança
A estratégia desenhada pelo BRB inclui um conjunto de medidas:
- Empréstimo de 4 bilhões de reais via Fundo Garantidor de Crédito (FGC)
- Captação de outros 4 bilhões com um sindicato de bancos
- Criação de um fundo de investimento imobiliário (FII) com terrenos públicos
- Venda de participações em subsidiárias
- Alienação de ativos considerados saudáveis do Banco Master
Até agora, porém, apenas a venda de ativos avançou de forma concreta. A operação de até 15 bilhões será estruturada em duas etapas: um pagamento à vista entre 3 bilhões e 4 bilhões de reais e uma segunda parcela, entre 11 bilhões e 12 bilhões, por meio de cotas subordinadas do fundo que irá administrar e tentar monetizar os ativos.
Especialistas destacam diferença entre narrativa e realidade
Para Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, apenas uma fração do valor será convertida em caixa no curto prazo. "O banco deve receber entre 3 bilhões e 4 bilhões de reais à vista, sem prazo definido para o restante. Isso torna a operação incerta, já que o rombo não será integralmente coberto", afirma.
Fábio Nascimento, CEO do Grupo FN, segue a mesma linha. Para ele, a operação melhora a percepção de risco e reduz a exposição a ativos problemáticos, mas não resolve o desequilíbrio estrutural. "É um movimento necessário dentro da estratégia, mas insuficiente como solução definitiva", diz.
Alberto Ajzental, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que o ponto central da análise é a diferença entre narrativa e realidade. "O que importa não é a promessa de solução rápida, mas os elementos verificáveis: venda efetiva de ativos, entrada de caixa, recomposição de capital, melhora de indicadores e transparência sobre eventuais perdas", afirma.
Prazo de agosto é considerado desafiador
Nesse contexto, o prazo inicialmente ventilado pelo próprio BRB — até o fim de maio — é visto como pouco crível. O Banco Central estabeleceu 5 de agosto como limite, considerado mais factível, ainda que desafiador. Para Leonardo Baldez Augusto, economista e CEO da fintech ISF, o cumprimento desse prazo dependerá da capacidade de execução do banco. "É viável, mas exige coordenação, atração de capital e consistência nos indicadores prudenciais", afirma.
Pressão política adiciona camada de incerteza
Por ser um banco estatal, o BRB está no centro de pressões para receber apoio de instituições federais. A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), criticou publicamente a falta de engajamento de bancos controlados pela União. Em entrevista à CNN, afirmou que apenas Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil não têm negociado com o BRB, ao contrário das instituições privadas.
Do outro lado, o governo Lula mantém distância do caso, em parte devido ao envolvimento do banco com o episódio do Banco Master, que atingiu a gestão do Bolsonarista Ibaneis Rocha (MDB). O ex-governador deixou o cargo no fim de março de 2026 para disputar uma vaga no Senado.
Diagnóstico permanece: solução está incompleta
Procurados no início de abril, Caixa Econômica e Banco do Brasil afirmaram que avaliam oportunidades de negócio de forma técnica, com base em critérios comerciais e estratégicos. Na prática, seguem sem participação direta no processo.
Em suma, o BRB avançou ao estruturar uma saída para parte dos ativos problemáticos, mas o diagnóstico permanece o mesmo: a solução está incompleta. A operação melhora a fotografia de curto prazo, sem garantir a recuperação plena. Ainda assim, analistas consideram baixa a probabilidade de liquidação da instituição.
Como banco estatal, o BRB conta com um fator decisivo: a possibilidade de capitalização com recursos públicos — um instrumento que, embora extremo, costuma funcionar como última linha de defesa.



