Por que o namoro entre investidores estrangeiros e o Brasil esfriou
Namoro entre investidores estrangeiros e o Brasil esfriou

Após um início de ano promissor, com a bolsa de valores brasileira batendo recordes sucessivos e o dólar sendo negociado abaixo de 5 reais pela primeira vez em dois anos, o cenário mudou drasticamente entre abril e maio. O Ibovespa, que atingiu a marca inédita de 199.000 pontos em 14 de abril, perdeu fôlego e, nesta segunda-feira, 25, registrava 177.000 pontos. A queda desde o pico é de 11%, e os estrangeiros já retiraram cerca de 10 bilhões de reais das ações brasileiras em maio, revertendo o fluxo positivo de capital internacional que havia sido o maior em uma década nos quatro meses anteriores.

Dólar e o impacto de áudios vazados

No mercado de câmbio, a história é semelhante. A moeda norte-americana, que começou 2025 valendo mais de 6 reais, chegou a atingir o piso de 4,89 reais há duas semanas, a menor cotação desde o início de 2024. No entanto, a calmaria durou pouco. Dois dias depois, áudios vazados revelaram negociatas entre Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, provocando um repique no câmbio. Naquela quarta-feira, 13 de maio, a cotação saltou de 4,90 para 5 reais em poucos minutos, encerrando o dia com a maior alta em cinco meses. Desde então, a moeda flutua entre 5 e 5,10 reais.

O episódio, apelidado de “Vorcaro day”, pode redesenhar o jogo político e dá uma prévia da volatilidade que a corrida eleitoral trará para os mercados. No entanto, gestores ouvidos pela reportagem garantem que, apesar da coincidência, não é o potencial esvaziamento da candidatura de Flávio Bolsonaro ou a melhora de Lula nas pesquisas que mudaram a direção do dólar e da bolsa. O que ocorre é que, após uma temporada em que investidores estrangeiros se afastaram dos Estados Unidos em busca de ativos de outros mercados – com o Brasil ganhando destaque em meio ao petróleo em alta –, há sinais de que o capital global está se retraindo parcialmente.

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Fatores globais predominam

Paulo Clini, chefe de investimentos em renda fixa e fundos balanceados na filial brasileira da gestora americana Franklin Templeton, afirma: “O que está acontecendo no câmbio não é motivado por fatores locais, são os fatores globais que estão predominando.” Ele acrescenta que, em relação às eleições, ainda é muito cedo para conclusões definitivas. Clini lembra que boa parte do capital que fluiu para o Brasil nos últimos anos veio de investidores que ganham com o diferencial de juros – quando o juro brasileiro, que chegou a 15%, supera o de seu mercado de origem. No entanto, com os Estados Unidos mantendo juros elevados devido à pressão inflacionária, enquanto o Brasil corta suas taxas lentamente, o cenário muda.

“O que começamos a ver nos últimos dias no mercado global foi uma reprecificação da postura dos bancos centrais, com muitos indicando quedas menores dos juros, pausas ou novas elevações”, explica Clini.

Bolsa brasileira perde atratividade

Alfredo Menezes, presidente e CIO da gestora Armor Capital, acrescenta outro fator: a bolsa brasileira, que antes estava barata em relação a outras, já subiu de preço após os recordes. “A nossa bolsa de maneira geral não está mais barata, está no preço justo”, afirma Menezes, que tem quatro décadas de experiência. “E, com os juros que temos hoje no Brasil, não vejo mais nenhum apelo para a bolsa agora. A ação tem que ganhar de um CDI de 14,5% para compensar, o que é muito difícil.”

Exportações e petróleo como âncoras

Quanto à taxa de câmbio, Menezes destaca fatores favoráveis a um dólar mais baixo, como as exportações. “O conflito no Oriente Médio, com a alta do petróleo, foi bom para a nossa balança comercial, e quanto mais uma normalização demorar, melhor ficarão os resultados das nossas contas externas”, diz. “A nossa moeda ficou mais resiliente em comparação a outros emergentes. Não há na América Latina outro grande exportador de petróleo como nós.”

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No acumulado de janeiro a abril, as exportações brasileiras cresceram 9% em comparação com o mesmo período de 2025, somando 117 bilhões de dólares – o maior valor já registrado para o período. Só em petróleo, o aumento foi de 26%, para 17,6 bilhões de reais. Com esse impulso, Menezes acredita que o dólar possa se acomodar confortavelmente na casa dos 4,90 reais. “Para a situação atual, esse é um preço justo”, afirma.

O valor em que a cotação pode se estabilizar ao longo do ano dependerá dos rumos das eleições. “Se houver uma sinalização de reformas na nova gestão, o dólar pode ir a 4,90 ou 4,85; caso contrário, pode voltar para os 5,40”, conclui, lembrando dos picos de 6 reais no fim de 2024 após pacotes fiscais desastrados do governo.