Inflação acelera em março com forte pressão de combustíveis e alimentos
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,88% em março, superando tanto os 0,70% de fevereiro quanto as projeções do mercado financeiro. O resultado reflete pressões significativas nos setores de transportes e alimentação, que juntos responderam por impressionantes 76% do índice total do mês.
Combustíveis lideram alta com impacto direto nos preços
Os combustíveis apresentaram aumento médio de 4,47%, com a gasolina subindo 4,59% no período. Como este é o item de maior peso entre os 377 pesquisados pelo IBGE, sua alta respondeu sozinha por 0,23 ponto percentual no IPCA. O diesel, embora com aumento expressivo de 13,70%, possui peso menor no cálculo geral do índice.
O grupo Transportes como um todo registrou alta de 1,64%, contribuindo com 0,34 ponto percentual para o IPCA. Entretanto, o efeito mais preocupante veio da especulação com o preço do diesel, que impactou diretamente o transporte de mercadorias in natura e levou os preços dos Alimentos e Bebidas a acelerarem de 0,26% em fevereiro para 1,56% em março.
Salvador: caso extraordinário de inflação regional
O dado mais surpreendente do levantamento do IBGE veio da cidade de Salvador, onde a inflação atingiu 1,47% - quase o dobro das taxas registradas no Rio de Janeiro e São Paulo (ambas 0,78%) e bem acima da média nacional de 0,88%.
A capital baiana, que tem peso de 5,99% na composição final do IPCA, foi a menos protegida pelos pacotes governamentais para conter os preços do diesel e enfrentou mais duramente os efeitos do conflito internacional. A alta extraordinária nos postos de combustível em Salvador, que se irradiou para o transporte de alimentos e outras mercadorias, está diretamente relacionada à posição singular da refinaria Acelen.
O papel da Acelen na pressão inflacionária
Enquanto a gasolina subia 4,20% no Rio de Janeiro e 4,40% em São Paulo, a Acelen - antiga refinaria Landulpho Alves da Petrobras, privatizada pelo governo Bolsonaro para o fundo Mubadala dos Emirados Árabes Unidos - importa petróleo a preços de mercado e reajustou a gasolina de forma mais agressiva.
Em Salvador, a pesquisa do IBGE encontrou alta de 17,37% na gasolina nos postos e impressionantes 28,83% no diesel, com forte repasse desses aumentos para os preços dos alimentos e bebidas. A situação levanta questionamentos sobre os efeitos da privatização no setor de combustíveis brasileiro.
Análise do Bradesco e perspectivas futuras
O banco Bradesco destacou que a surpresa inflacionária foi relativamente disseminada entre diferentes grupos de produtos. Os preços dos bens industriais subiram mais do que o esperado, com altas mais expressivas em higiene pessoal e bens duráveis. A inflação de serviços também acelerou, com a alimentação fora de casa revertendo a tendência recente de enfraquecimento.
Para o Bradesco, "a surpresa generalizada no índice, combinada ao cenário de preços do petróleo pressionados, indica um período de alta da inflação". Mesmo com possível moderação nos preços do petróleo nos próximos meses, a inflação acumulada em 12 meses deve seguir tendência altista até o final do ano.
Em 12 meses, o IPCA passou de 3,8% para 4,1%, enquanto o núcleo por médias aparadas com suavização atingiu alta de 4,50%. O mercado financeiro agora aguarda a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central no dia 29, com expectativas de queda de apenas 0,25% na taxa Selic.
O contexto internacional continua influente, com o petróleo Brent para entrega em junho cotado a US$ 97 (alta de 1,16%) e o dólar negociado a R$ 5,0280 (menor cotação desde fevereiro de 2024). As conversas de paz no Paquistão podem ter impacto significativo nas decisões de política monetária brasileira.



