Inflação volta a ganhar força no Brasil e complica planos de acelerar corte de juros
Inflação volta a ganhar força no Brasil e complica juros

A inflação voltou a atormentar a vida de milhões de brasileiros com mais força do que se imaginava. Após um 2025 marcado pela acomodação de preços, impulsionada pela valorização do real frente ao dólar, o cenário agora é bem diferente. Os estragos provocados pela guerra no Irã se espalham pela economia brasileira, tornando a inflação de 2026 mais alta e persistente.

Impactos da alta do petróleo

O gatilho para esse movimento foi a escalada do conflito no Irã, atacado por Estados Unidos e Israel no final de fevereiro, comprometendo as exportações do Oriente Médio, região responsável por grande parte da produção global de petróleo. Como resultado, o preço do barril saltou de 70 para mais de 100 dólares em poucos dias, reacendendo a pressão inflacionária no mundo e no Brasil.

Boa parte dos reajustes está concentrada em combustíveis e fretes, mas já começam a se espalhar por outros segmentos. O coordenador do IPC-Fipe, Guilherme Moreira, afirma: “A tendência é de alta generalizada. As empresas já enfrentam insumos mais caros e vão repassar esses custos gradualmente ao consumidor.”

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Indicadores recentes

O IPCA-15, prévia do índice oficial do IBGE, divulgado em 28 de abril, mostra o diesel subindo 16% e a gasolina 6%. Nos supermercados, a inflação dos alimentos acelerou de 0,9% em março para 1,7% em abril, a maior variação mensal em dois anos. O IPA, da FGV, que mede a inflação no atacado, avançou 3,5% em abril, a maior alta em cinco anos.

Segundo o economista Danilo Igliori, “mesmo que a guerra terminasse agora, os impactos já seriam relevantes por causa dos preços do petróleo. E não há sinais de que o conflito vá terminar tão cedo.”

Política monetária e juros

Na quarta-feira 29, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano, mantendo o ciclo de queda, mas em ritmo cauteloso. O novo cenário impõe limites à atuação da autoridade monetária e prolonga o período de crédito caro. O Federal Reserve também manteve os juros inalterados, entre 3,5% e 3,75%, com pouco espaço para cortes no curto prazo.

No Brasil, a dinâmica doméstica pesa sobre a política monetária. O presidente Lula pressiona por juros baixos, mas busca manter a economia aquecida com aumento de benefícios e novos programas sociais, o que acaba alimentando a alta de preços. O ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, explica: “Uma taxa de 8% seria suficiente para esfriar a demanda, mas o governo não para de expandir o Orçamento, tirando o efeito da política monetária.”

Perspectivas

As projeções de mercado apontam para uma inflação de 4,9% ao fim de 2026, o que seria a quarta vez em seis anos que o índice estoura o teto da meta (4,5%). A perspectiva de convergência ao centro da meta, que começava a ganhar corpo, praticamente se desfez. Para o consumidor, a alta de preços representa um duro golpe no poder de compra, após uma sequência de sustos desde a pandemia.

Entre choques externos e decisões internas equivocadas, a inflação volta a se impor, e mais uma vez quem paga a conta é o consumidor.

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