Irlanda articula suspensão da carne brasileira na UE, diz colunista
Irlanda articula suspensão da carne brasileira na UE

A decisão da União Europeia de suspender a compra de carne bovina brasileira a partir de setembro ganhou um componente muito mais político do que sanitário, de acordo com o colunista de VEJA, Gustavo Junqueira. Para ele, o episódio representa uma ofensiva articulada por países europeus que resistem ao avanço do agronegócio brasileiro dentro do acordo Mercosul-União Europeia.

Articulação política por trás do embargo

Segundo o colunista, o bloco europeu utilizou critérios técnicos como instrumento para justificar uma disputa comercial que já vinha sendo travada nos bastidores há meses. No centro dessa articulação aparece a Irlanda. Junqueira relata que, durante a votação do acordo comercial no Parlamento Europeu, a Associação dos Agricultores da Irlanda enviou representantes ao Brasil em uma espécie de missão investigativa.

Investigação de campo revela fragilidades

O grupo percorreu cerca de 3 mil quilômetros por quatro estados brasileiros, visitando lojas de produtos agropecuários e reunindo material que, posteriormente, seria usado como argumento contra o Brasil em Bruxelas. O ponto mais sensível da investigação foi a facilidade encontrada pelos europeus para adquirir medicamentos veterinários irregulares.

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Compraram antibióticos sem receita, de uso humano restrito, sem nome e sem nenhuma pergunta feita, conforme afirmou o colunista. Toda a operação foi filmada e transformada em um dossiê entregue à Comissão Europeia. Na avaliação dele, tratou-se de um torpedo político cuidadosamente preparado para abastecer o lobby agrícola europeu, especialmente em países como França, Polônia e Irlanda, historicamente resistentes ao acordo com o Mercosul.

Fragilidade do sistema de fiscalização brasileiro

Para Junqueira, o problema maior não está no pecuarista brasileiro, mas na incapacidade do Estado de estruturar um sistema robusto de fiscalização e rastreabilidade. Ele lembra que o Sistema de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos foi criado há 24 anos, mas ainda cobre menos de 20% do rebanho nacional. A crítica recai sobre sucessivos governos e sobre o Ministério da Agricultura, que reagiu tarde demais a um problema conhecido há décadas.

Impacto econômico significativo

O impacto econômico preocupa o setor. A estimativa é de perda próxima de 2 bilhões de dólares em exportações de carne premium, justamente a fatia mais rentável do mercado. Na prática, o fechamento europeu também deve pressionar o produtor rural brasileiro. Com menos compradores internacionais disputando a produção, frigoríficos ganham força para reduzir o valor pago pela arroba do boi, comprimindo margens e aumentando a insegurança no campo.

Diplomacia como saída

Apesar do cenário adverso, Junqueira afirma que ainda existe espaço para reação diplomática. Ele defende que o vice-presidente Geraldo Alckmin assuma pessoalmente as negociações em Bruxelas, aproveitando a experiência acumulada nas tratativas do acordo Mercosul-União Europeia. Para o colunista, a batalha de setembro já está praticamente perdida, mas o Brasil ainda pode evitar danos permanentes se tratar a regulação sanitária com mais profissionalismo e estratégia política daqui para frente.

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