O avanço do agronegócio brasileiro tornou-se também um problema financeiro de grandes proporções. Em entrevista ao programa Mercado, o colunista da Veja Negócios, Gustavo Junqueira, afirmou que o país criou uma dinâmica perigosa ao sustentar o crescimento do setor em premissas que deixaram de existir.
Riscos sistêmicos no setor
Durante anos, predominou a ideia de que o preço da soja e das terras seguiria em alta e que o risco climático seria limitado. No entanto, juros elevados, custos pressionados e queda das commodities desmontaram essa lógica e empurraram produtores para uma situação delicada. “Não adianta ter só supersafra no Brasil… uma supersafra com margem zero não significa nada. Você está tocando seis por meia dúzia”, resumiu Junqueira.
O colunista alerta que o risco já não está apenas “dentro da porteira”. Hoje, o agro movimenta cerca de R$ 3,2 trilhões e espalhou sua dependência de crédito por todo o mercado financeiro. Além dos R$ 750 bilhões do Plano Safra, existe aproximadamente R$ 1 trilhão em crédito privado distribuído entre CRAs, tradings, barter e operações estruturadas. “Hoje, qualquer crise no agro atravessa o sistema financeiro inteiro”, afirmou.
Medidas emergenciais e estruturais
Para aliviar a pressão imediata, ele considera válida a proposta de utilizar cerca de R$ 30 bilhões do Fundo Social do pré-sal para alongar dívidas consideradas “impagáveis”, oferecendo prazo maior para reorganização financeira dos produtores. O colunista, porém, insiste que o país precisa parar de tratar crises do agro apenas como emergências temporárias.
A proposta defendida por ele passa pela criação de um fundo garantidor, nos moldes do FGI, capaz de usar aportes entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões para alavancar até R$ 150 bilhões em financiamentos. “Resolve esse problema agora, mas monta uma estrutura que possa ser um fundo garantidor”, disse.
Críticas à política agrícola
Na avaliação de Junqueira, Brasília ainda prefere empurrar soluções para frente e transformar renegociações em rotina política. “O Brasil tem essa habilidade, né? Provavelmente é o único país do mundo que consegue transformar negociação emergencial em política agrícola permanente”, criticou.
O pacote de socorro ao agronegócio em tramitação no Senado visa justamente atender a essa demanda por alívio imediato, mas especialistas reforçam a necessidade de uma solução estrutural para evitar crises recorrentes no setor que movimenta trilhões de reais na economia brasileira.



