Justiça de SP suspende venda de prédio com laboratórios de pesquisa em saúde na Luz
Justiça suspende venda de prédio com laboratórios de pesquisa em SP

Justiça suspende venda de prédio com laboratórios de pesquisa em saúde na região da Luz

A Justiça de São Paulo determinou nesta segunda-feira (23) a suspensão imediata da autorização concedida pelo governo estadual para a venda de um prédio público que abriga laboratórios de pesquisa em saúde na região da Luz, no Centro da capital paulista. A decisão liminar foi proferida pela 13ª Vara da Fazenda Pública em resposta a uma ação civil pública movida pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC).

Imóvel estratégico para pesquisa científica

O imóvel localizado na Rua Paula Souza, nº 166, que integra a estrutura da antiga Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) – atualmente vinculada ao Instituto Pasteur –, abriga uma complexa estrutura científica recentemente reformada com recursos públicos. Segundo a juíza Paula Narimatu de Almeida, a autorização para venda foi concedida pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em despacho de 10 de março sem o devido cumprimento das exigências constitucionais.

A magistrada destacou em sua decisão que existem indícios de irregularidade no processo, especialmente quanto ao possível descumprimento da Constituição estadual, que exige audiência com a comunidade científica e aprovação legislativa prévia para a alienação de patrimônio científico. A liminar impede temporariamente a transferência do bem, considerado essencial para atividades de vigilância epidemiológica e pesquisa em saúde pública.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Estrutura científica em risco

De acordo com a decisão judicial, o prédio em questão abriga laboratórios estratégicos nas áreas de entomologia, malacologia e biologia molecular, além de contar com 82 profissionais, entre pesquisadores e técnicos, e estudantes de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP) que utilizam a infraestrutura em projetos acadêmicos. A juíza apontou que a autorização para venda foi concedida sem estudos técnicos sobre:

  • Impactos institucionais da medida
  • Plano de realocação dos laboratórios
  • Continuidade das pesquisas em andamento

A liminar destaca que a alienação do imóvel resultaria na "perda do controle sobre patrimônio científico e prejuízo a atividades de relevância pública", comprometendo a capacidade de resposta do Estado a doenças endêmicas.

Violação constitucional e falta de consulta

Na ação civil pública, a APqC sustenta que o imóvel integra o patrimônio científico do estado e, portanto, não pode ser vendido sem o cumprimento das exigências constitucionais específicas. A Constituição paulista determina que bens deste tipo só podem ser alienados após:

  1. Audiência com a comunidade científica
  2. Aprovação prévia do Poder Legislativo

Segundo a associação, o governo utilizou uma lei estadual que permite a venda de imóveis de até 5 mil metros quadrados, mas essa autorização genérica não substitui a exigência constitucional específica para patrimônio científico. A presidente da APqC, Helena Dutra Lutgens, afirmou que "a liminar é necessária para evitar a perda imediata de uma estrutura científica ativa" que sustenta atividades essenciais de vigilância epidemiológica.

Posição do Ministério Público e lacunas no processo

O Ministério Público de São Paulo manifestou-se a favor da suspensão da venda, argumentando que há "plausibilidade do direito" e risco de dano caso a alienação seja concretizada. O promotor Paulo Destro destacou a relevância da infraestrutura científica instalada no imóvel e a ausência de estudos técnicos que justifiquem a medida.

A APqC apontou ainda outras lacunas no processo de autorização para venda:

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar
  • Inexistência de estudo econômico que fundamente a alienação
  • Ausência de plano para continuidade das pesquisas
  • Falta de definição sobre onde e como os laboratórios seriam transferidos
  • Ausência de audiência pública com a comunidade científica

Para a entidade, essa falta de planejamento impede avaliar adequadamente os impactos institucionais, científicos e sanitários da medida. A advogada da APqC, Helena Goldman, afirmou que "o prédio em questão passou por reforma recente com investimento de recursos públicos, o que não pode ser desconsiderado sem a apresentação de um plano de ação" que avalie os impactos da alienação sobre as pesquisas em curso.

O governo estadual, em nota, afirmou que tem "adotado medidas em conflito com a Constituição Estadual", o que já motivou intervenções judiciais em outros casos. A decisão liminar permanece em vigor até nova deliberação judicial sobre o mérito da ação civil pública.