Justiça suspende desapropriação de prédio comercial em Botafogo após ação do Grupo Sendas
Justiça suspende desapropriação de prédio em Botafogo

Justiça suspende desapropriação de prédio comercial em Botafogo após ação do Grupo Sendas

A Justiça do Rio de Janeiro determinou a suspensão imediata da desapropriação de um imóvel localizado na Rua Barão de Itambi, em Botafogo, na Zona Sul da cidade. A decisão liminar, proferida pelo juiz Wladimir Hungria, também impede a prefeitura de realizar o leilão que estava marcado para o dia 31 de março, colocando um ponto de interrogação sobre os planos municipais para o terreno.

Indícios de irregularidade no processo administrativo

Na fundamentação da decisão, o magistrado destacou indícios claros de irregularidade no processo de desapropriação. Entre os problemas apontados estão a ausência de procedimento administrativo prévio e a falta de fundamentação adequada no decreto municipal que declarou o imóvel de utilidade pública. O juiz ainda ressaltou o risco de desvio de finalidade, com a possibilidade de o imóvel ser direcionado para interesses privados em detrimento do bem público.

O imóvel em questão pertence ao Grupo Sendas e vinha sendo alvo de um processo de desapropriação por hasta pública, mecanismo previsto no Plano Diretor do município para destinar imóveis a novos projetos urbanos. Até novembro de 2025, funcionava no local um supermercado da rede Pão de Açúcar, e os proprietários afirmam que o espaço seria alugado para outra empresa do mesmo setor.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Ações judiciais contestam a desapropriação

A liminar foi concedida em uma ação movida pelo próprio Grupo Sendas, que contesta a legalidade da desapropriação. Paralelamente, o vereador Pedro Duarte (PSD) ingressou com uma ação popular sobre o mesmo caso. A Justiça entendeu que os dois processos possuem relação direta e determinou que tramitem de forma conjunta.

Em suas alegações, o vereador Duarte argumentou que "a desapropriação visou na verdade atender a um pleito da FGV, que pretende criar ali um centro de pesquisa". Ele ainda destacou que "a população do bairro já se utiliza do comércio varejista no local há muito tempo e não pode prescindir dele", concluindo que "o imóvel não está abandonado, ou seja, não se inclui no dispositivo da hasta pública".

Projeto municipal previa centro de inteligência artificial

A desapropriação foi decretada pela prefeitura no final de 2025 com o objetivo declarado de viabilizar a construção de um centro de pesquisa em inteligência artificial. O projeto estava associado à Fundação Getulio Vargas (FGV), que já havia apresentado estudos para implantação de um centro acadêmico e tecnológico no terreno.

O edital do leilão, agora suspenso, estabelecia lance mínimo de R$ 36 milhões e obrigava o comprador a implantar no local um projeto voltado exclusivamente para pesquisa e ensino na área de inteligência artificial. O imóvel, que tem entrada pela Rua Barão de Itambi e pela Rua Jornalista Orlando Dantas, seria totalmente reconfigurado para atender a essa nova finalidade.

Mobilização popular contra a medida

A desapropriação também gerou forte reação dos moradores da região, que defendem a manutenção de um supermercado no local. Um abaixo-assinado organizado contra a medida reuniu mais de 3 mil assinaturas desde dezembro, com adesões registradas em diferentes bairros do Rio e até em outros municípios.

Segundo os organizadores da mobilização, o imóvel sempre teve atividade comercial intensa e atende à população local há décadas, sendo considerado um equipamento essencial para o abastecimento do bairro. A polêmica teve início logo após a publicação do decreto municipal que declarou o imóvel de utilidade pública para fins de desapropriação.

Com a decisão judicial desta semana, todo o processo fica suspenso até nova análise da Justiça. O instrumento da hasta pública, que permite que imóveis sejam levados a leilão antes mesmo da conclusão da desapropriação, transferindo à iniciativa privada a responsabilidade de dar nova destinação ao espaço, agora enfrenta questionamentos legais que podem redefinir seu uso na política urbana do município.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar