Família Caiado ocupa cargos comissionados em Goiás com mais de 50 parentes na folha de pagamento
Família Caiado tem mais de 50 parentes em cargos comissionados em Goiás

Família Caiado mantém forte presença em cargos públicos de Goiás após saída do ex-governador

Nascer na família Caiado em Goiás parece ser um ativo valioso para conseguir posições no serviço público estadual. O ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) deixou o cargo no último dia 31 de março, mas seu legado familiar permanece fortemente enraizado na administração pública goiana.

Rede familiar extensa na folha de pagamento

Uma investigação detalhada revela que pelo menos 10 parentes diretos de Caiado permanecem em cargos comissionados no governo estadual. No total, impressionantes 50 indivíduos com o sobrenome Caiado aparecem na folha de pagamento de março do estado de Goiás. Quando somadas todas as remunerações, esse grupo familiar recebe mais de R$ 650 mil mensais dos cofres públicos.

O grupo inclui uma variedade de categorias funcionais: servidores reformados, aposentados, pensionistas, efetivos, temporários e, principalmente, comissionados. Se considerarmos familiares com outros sobrenomes que não Caiado, o número cresce ainda mais significativamente.

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Parentes em posições estratégicas

A reportagem identificou especificamente 10 parentes comissionados - funcionários nomeados livremente por autoridade para exercer funções de direção, chefia ou assessoramento, sem necessidade de concurso público. Desses 10 nomes, 9 são primos e 1 é marido de prima do ex-governador.

Adriano da Rocha Lima, primo de Caiado, serve como assessor na Secretaria de Relações Institucionais e é cotado para ser vice na chapa do atual governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB). Vilela assumiu após Caiado lançar sua pré-candidatura à Presidência pelo PSD.

Andrea Parrode da Rocha Lima Dantas, outra prima, ocupa o cargo de chefe de gabinete na Secretaria de Estado de Esporte e Lazer. Juliana Ramos Caiado, também prima, atua como assessora especial na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social.

Paulo Henrique Caiado Canedo, primo do ex-governador, exerce dupla função: é conselheiro do CAT (Conselho Administrativo Tributário), vinculado à Secretaria de Estado da Economia, e assessor na Assembleia Legislativa de Goiás. Jorge Luiz Ramos Caiado Júnior, outro primo, serve como chefe de Gabinete na Secretaria de Estado da Administração.

Defesa legal e brechas na legislação

Ronaldo Caiado defende as nomeações afirmando que "todas as contratações mencionadas foram previamente analisadas pela Procuradoria-Geral do Estado e estão em total conformidade com a legislação vigente e com a súmula vinculante nº 13, do STF (Supremo Tribunal Federal)".

Especialistas em direito administrativo, no entanto, apontam que os casos se encaixam em brechas da lei que define nepotismo. Segundo a legislação atual, para configurar nepotismo, a nomeação deve envolver cônjuges, companheiros e parentes até o 3º grau em funções de confiança ou cargos em comissão. Como primos são considerados parentes de 4º grau, tecnicamente escapam dessa definição.

Outra brecha explorada foi a nomeação de pessoa ligada à família em cargos políticos de primeiro escalão, como secretários estaduais. Nesse tipo de posição, o STF já entendeu ser possível a nomeação de parentes. No governo Caiado, Cesar Augusto de Sotkeviciene Moura, casado com uma prima do político, foi colocado à frente da Secretaria de Estado da Retomada.

Entidade parceira do governo também abriga familiares

A investigação revela ainda que a OVG (Organização das Voluntárias de Goiás), entidade sem fins lucrativos que mantém parceria com o governo estadual, também emprega familiares. Na folha de pagamento da organização aparecem a esposa de um primo de Caiado e dois sobrinhos da ex-primeira-dama Gracinha Caiado.

Interessantemente, a entidade recebeu no último aditivo contratual um aumento de 70% nos repasses estaduais comparado ao ano anterior - salto de R$ 434 milhões no orçamento referente ao período de julho de 2024 a junho de 2025 para R$ 738 milhões de julho de 2025 a junho de 2026.

A presidência de honra da OVG foi, até o último dia 31, exercida por Gracinha Caiado, agora pré-candidata ao Senado pelo União Brasil. O cargo é voluntário e não possui remuneração.

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Adryanna Leonor Melo de Oliveira Caiado, casada com um primo do ex-governador, ocupa a diretoria geral da OVG com salário de R$ 40,5 mil mensais. Ela também preside o conselho de administração da Goiás Parcerias (Companhia de Investimentos e Parcerias do Estado de Goiás) com remuneração de R$ 17,3 mil, e é conselheira administrativa na Saneago, empresa de saneamento, recebendo R$ 9,8 mil. No total, sua renda mensal chega a R$ 67,6 mil.

Em nota, a OVG afirma que o nome de Adryanna foi aprovado pelo conselho de administração da organização e que, sob sua gestão, a entidade teve crescimento histórico. A diretora argumenta ter "quase 30 anos de serviço público em Goiás" e que sua formação e experiência "foram fatores determinantes" para assumir os cargos.

Questionamentos constitucionais

Para os especialistas em direito administrativo Leandro Mello Frota, membro do IAB (Instituto dos Advogados Brasileiros), e Manoel Peixinho, professor da PUC-Rio, mesmo dentro das exceções previstas em lei, os casos podem gerar ações na Justiça sob o argumento de violação de princípios constitucionais.

"Estamos falando de dinheiro público e de funções importantes para a vida da sociedade. É importante olhar as atitudes do governante, que, embora não estejam, em um primeiro momento, praticando nepotismo, podem estar afrontando outros princípios da Constituição, como moralidade, impessoalidade e eficiência", afirma Mello Frota.

Gracinha Caiado defende seu período na OVG afirmando que "liderou o maior programa de superação da pobreza da história de Goiás". A entidade realiza em parceria com o estado programas sociais como distribuição de alimentos e acolhimento a grávidas, crianças e idosos.

O ex-governador mantém que "todos os servidores mencionados exercem regularmente suas funções, possuem qualificação técnica compatível com os cargos que ocupam e desempenham suas atribuições sem qualquer irregularidade ou prejuízo à administração pública".

A situação ilustra o delicado equilíbrio entre nomeações políticas legítimas e práticas que, mesmo dentro da letra da lei, podem ser questionadas quanto ao espírito da administração pública transparente e impessoal.