Vídeos de alimentos falantes com IA viralizam e geram debate sobre desinformação
Alimentos falantes com IA viralizam e geram debate

Vídeos de alimentos falantes com IA viralizam e geram debate sobre desinformação

Uma nova tendência digital está conquistando as redes sociais, especialmente o TikTok e o Instagram. Vídeos criados com inteligência artificial mostram alimentos e objetos domésticos ganhando vida e expressando opiniões ranzinzas sobre como devem ser usados ou conservados. Essas publicações já somam centenas de milhares de visualizações e geram reações variadas do público.

O fenômeno dos alimentos que falam e dão conselhos

Em um vídeo que já acumula mais de 159 mil visualizações no TikTok, uma casca de banana afirma com tom raivoso: "Eu sou a casca de banana e não sou lixo. Me pique e jogue na terra que eu viro adubo poderoso para as suas plantas que estão lá morrendo". Outra publicação, desta vez no Instagram, mostra um pão de forma alertando: "Geladeira me deixa duro e sem graça. Meu lugar é fora, vivendo em paz".

Esses conteúdos têm se espalhado rapidamente, com perfis dedicados exclusivamente a esse tipo de publicação. A maioria dos vídeos apresenta dicas relacionadas a alimentos, como:

  • Macarrão
  • Morango
  • Brócolis
  • Salsicha
  • Alho
  • Cenoura
  • Abacaxi

Embora também apareçam objetos como geladeira, pasta de dente e esponja de lavar louça, os alimentos são os protagonistas dessa trend digital. No TikTok, as hashtags #alimentosfalantes e #objetosfalantes já reúnem centenas de publicações.

Inteligência artificial por trás dos vídeos virais

O g1 verificou que parte significativa desses vídeos foi criada utilizando o Veo 3, uma ferramenta de inteligência artificial do Google que gera vídeos ultrarrealistas. Esta mesma tecnologia já havia sido usada em outras virais ao longo de 2025, como na criação da apresentadora fictícia Marisa Maiô.

Os vídeos seguem uma fórmula específica: mostram alimentos ou objetos com expressões humanizadas dando conselhos, quase sempre sem citar a origem das informações apresentadas. Essa característica tem levantado preocupações entre especialistas.

Especialista alerta para riscos de desinformação

Para analisar esse fenômeno digital, o g1 conversou com Angelica Mari, especialista em cyberpsicologia, área que estuda os impactos da tecnologia no comportamento humano. Segundo ela, trata-se de um fenômeno preocupante onde o público pode acabar acreditando que, por ser um alimento "falando", a informação seria automaticamente confiável.

"Mas alguns desses vídeos que vi trazem regras duvidosas, principalmente sobre conservação de alimentos. Por isso, é importante checar a informação ali apresentada", completa Mari.

A especialista explica que o uso de uma linguagem simples e acessível, mesmo quando o alimento "briga" com o espectador, ajuda a criar proximidade e engajamento. "Nem sempre as pessoas conseguem absorver uma instrução, por exemplo, do Ministério da Saúde sobre como higienizar um alimento. Hoje, essa informação costuma funcionar melhor quando é apresentada de forma gamificada, infantilizada ou narrativizada".

Reações do público e nova trend derivada

Nos comentários dos vídeos, as reações costumam variar entre:

  1. Quem acha o conteúdo fofo e divertido
  2. Quem se diverte com o alimento "dando bronca"
  3. Quem elogia a possível utilidade das informações apresentadas

O fenômeno também impulsionou uma nova trend no TikTok: pessoas que passam a seguir, em tom de humor, os "conselhos" dos alimentos falantes. Essa derivação mostra como o conteúdo original está gerando engajamento além das publicações iniciais.

Conexão com o fenômeno "brain rot"

Os vídeos de alimentos falantes também se aproximam do chamado brain rot, termo usado para descrever a sensação de desgaste mental provocada pelo consumo excessivo de conteúdos superficiais nas redes sociais. A expressão ganhou tanta força que foi eleita a palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, após registrar cerca de 130 mil buscas ao longo do ano.

O brain rot virou um fenômeno consolidado nos últimos anos, principalmente no TikTok e no YouTube, com vídeos que apresentam objetos ou animais com características humanizadas em narrativas simples. Entre os exemplos mais populares estão personagens como:

  • "Tralalero Tralala", um tubarão usando tênis
  • "Ballerina Cappuccina", uma xícara vestida de bailarina
  • "Tum Tum Tum Sahur", uma madeira com um taco

Em geral, esses personagens não transmitem informações consideradas úteis, mas seguem uma lógica de continuidade, com histórias recorrentes que funcionam como episódios de uma série digital.

Importância da verificação de informações

O fenômeno dos alimentos falantes levanta questões importantes sobre consumo de informação nas redes sociais. Enquanto a abordagem lúdica e acessível facilita o engajamento, a falta de fontes confiáveis pode propagar desinformação, especialmente em temas sensíveis como conservação de alimentos e práticas de higiene.

Especialistas recomendam que os usuários sempre verifiquem as informações apresentadas nesses vídeos virais, consultando fontes especializadas antes de adotar qualquer prática sugerida. A combinação entre entretenimento digital e educação requer cuidado para não transformar conteúdo divertido em veículo de informações incorretas.