A Tetra Pak, empresa líder global em soluções para processamento e envase de alimentos, está impulsionando uma transformação significativa na cadeia de reciclagem brasileira. A estratégia consiste em fomentar o trabalho em rede entre cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis, um modelo que tem demonstrado ganhos expressivos em eficiência, volume processado e, principalmente, na renda dos trabalhadores.
O poder da união: como funciona o trabalho em rede
O conceito é simples, mas poderoso. Cooperativas de uma mesma região se unem para formar, de maneira coletiva, cargas completas de materiais recicláveis – com foco nas embalagens longa vida – para venda direta aos recicladores. Em vez de cada uma acumular isoladamente o volume necessário, que pode levar meses ou até mais de um ano, elas compartilham seus estoques.
Cada cooperativa informa a quantidade de material triado que possui, e esses volumes são somados para compor uma carga padrão, geralmente de 12 toneladas. Isso otimiza a logística de transporte e comercialização, tornando o processo mais rápido e economicamente viável para todos os envolvidos.
Resultados concretos: tempo cai e renda sobe
Os números comprovam o impacto positivo da iniciativa. Após dois anos da implementação do modelo em rede incentivado pela Tetra Pak, os resultados são impressionantes:
- Redução de aproximadamente 90% no tempo para formar a carga mínima comercializável.
- Aumento de até 100% no preço pago por tonelada de material, mais que dobrando a receita.
Valéria Michel, diretora de Sustentabilidade para Cone Sul e Brasil da Tetra Pak, destaca o propósito: “Nosso objetivo é continuar a desenvolver e fortalecer cadeias de reciclagem no Brasil, em especial o trabalho fundamental de catadores e catadoras. Reconhecemos a importância da economia circular e sabemos que, para que essa roda siga girando, é fundamental fortalecer cada um dos elos”, afirma.
Experiências reais de Norte a Sul do país
A eficácia do trabalho em rede ganha vida com os depoimentos de lideranças cooperativas. No Espírito Santo, Mirani dos Santos Pereira, da Rede Norte, conta que, antes de adotar o modelo formalmente em 2021, a cooperativa levava até um ano e meio para juntar uma carga. “Hoje, conseguimos produzir uma carga muito mais rápido, às vezes em 60 dias. Como escoamos o material em menos tempo, também aumentamos a renda da cooperativa”, relata.
Na região metropolitana de Recife (PE), 12 cooperativas operam em conjunto. Lindaci Gonçalves, da Cooperativa Coocares, explica a dinâmica: “Cada cooperativa liga para o responsável e diz quantos quilos tem. A carreta passa em cada uma já sabendo o peso e o material vai para a comercialização”. Ela ressalta a mudança crucial: “O que muda é o tempo: o material não fica muito tempo dentro dos galpões e a gente também não fica muito tempo sem dinheiro”.
O papel facilitador da Tetra Pak e do Projeto Conexões
Para tornar esse modelo uma realidade, a Tetra Pak atua como facilitadora por meio do Projeto Conexões, criado em 2008. A iniciativa oferece consultoria especializada a cooperativas em todo o Brasil, apoiando em negociações, logística, capacitação e disseminação de conhecimento sobre reciclabilidade.
Rodrigo Freitas, consultor do projeto e responsável por levar a ideia do trabalho em rede para dentro da empresa, explica: “O trabalho em rede é uma sistemática que envolve diversas cooperativas no intuito de que, juntas, possam comercializar todos os tipos de resíduos diretamente para o reciclador final e a um valor mais interessante”.
Os dados de 2025 mostram a abrangência do apoio: 206 entidades em 16 estados e no Distrito Federal foram assistidas, resultando no envio de 1.300 toneladas de embalagens longa vida entre janeiro e novembro apenas via trabalho em rede.
O modelo enfrenta um dos grandes desafios da reciclagem no país: a baixa adesão à coleta seletiva e a dificuldade de garantir um fluxo contínuo e de qualidade de material. Unidas, as cooperativas passam a operar em escala, com regularidade e maior capacidade de planejamento. Mais do que um ganho financeiro, o trabalho em rede traz autonomia, fortalecimento e dignidade para os profissionais que são a base da economia circular. Como resume Lindaci Gonçalves: “Meu sonho é ver o nosso trabalho e os nossos direitos reconhecidos. E eu acredito que isso há de acontecer”.