Papa Leão XIV enfrenta tempestade e ouve gritos por liberdade em prisão na Guiné Equatorial
A turnê africana do papa Leão XIV, primeiro pontífice norte-americano da história, teve um momento dramático e simbólico nesta quarta-feira (22) na Guiné Equatorial. Durante visita à prisão de Bata, na cidade homônima, o líder religioso recebeu uma cruz das mãos de um detento e ouviu apelos emocionados por liberdade, enquanto uma forte tempestade caía sobre o local.
Visita em meio à chuva e aos apelos dos presos
Leão XIV, que tem se destacado por um estilo vigoroso de discurso desde sua eleição, iniciou o dia denunciando a desigualdade de riqueza durante missa na maior igreja da África Central, situada em Mongomo, na borda da floresta tropical da Bacia do Congo. Em seguida, dirigiu-se à prisão de Bata, instalação onde, segundo a Anistia Internacional, os detentos são regularmente mantidos por anos sem acesso a advogados.
No pátio da prisão, o papa ouviu vários testemunhos de prisioneiros que se reuniram para recebê-lo. Enquanto fazia seus comentários, começou a chover intensamente, mas os detentos permaneceram do lado de fora, demonstrando determinação em serem ouvidos. "LIBERDADE, LIBERDADE!" gritaram os presos, pulando na chuva quando o pontífice se preparava para deixar o local.
Leão XIV pediu que fossem feitos "todos os esforços" para permitir que os detentos tivessem a oportunidade de estudar e trabalhar durante seu confinamento. O momento foi particularmente significativo porque ocorreu na presença do ministro da Justiça da Guiné Equatorial, Reginaldo Biyogo Mba Ndong Anguesomo, que permaneceu no palco durante os protestos.
Contexto político e direitos humanos
A Guiné Equatorial, governada desde 1979 pelo presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo – o mandatário mais antigo do mundo – é frequentemente criticada por organizações internacionais devido a seu regime repressivo. O país, de língua espanhola, mantém laços estreitos com os Estados Unidos, em grande parte devido às suas riquezas petrolíferas.
Antes do discurso do papa na prisão, o ministro Biyogo defendeu as práticas do país, afirmando que os prisioneiros são tratados de forma justa e de acordo com os padrões das Nações Unidas. "Estamos comprometidos em garantir os direitos humanos, os direitos fundamentais e a cidadania", declarou o representante do governo.
No ano passado, o governo de Obiang fechou um acordo com a administração Trump para aceitar deportados de outros países. Ativistas de direitos humanos esperavam que Leão XIV chamasse a atenção para a situação desses deportados enviados dos Estados Unidos para a Guiné Equatorial. Um grupo de 70 organizações não governamentais publicou uma carta aberta na segunda-feira (20) pedindo ao papa que pressionasse por um "tratamento justo, humano e legal" dos deportados.
Silêncio sobre deportados e posicionamento do pontífice
Leão XIV, que já atraiu a ira do ex-presidente norte-americano Donald Trump por se posicionar de forma mais franca contra a guerra e o despotismo, não abordou publicamente a situação dos deportados durante sua visita à Guiné Equatorial ou em Camarões, primeira parada de sua turnê africana. Ambos os países têm acordos para receber deportados dos Estados Unidos.
A visita do papa à prisão de Bata simboliza o contraste entre o apelo por justiça e liberdade e a realidade de um país que há muito rejeita acusações de abusos de direitos humanos. O momento em que recebeu a cruz de um detento tornou-se uma imagem poderosa desta passagem por uma nação onde a riqueza petrolífera convive com profundas desigualdades sociais.
A turnê de quatro nações africanas de Leão XIV, que incluiu Guiné Equatorial, Camarões, República Democrática do Congo e Sudão do Sul, reforçou seu estilo direto de comunicação e seu compromisso com questões sociais, mesmo enfrentando condições climáticas adversas e realidades políticas complexas.



