Moradores de Angatuba se unem para reformar capela dedicada à 'Menina Milagrosa' Maria Cordeiro
Em um ato de fé e gratidão, um grupo de moradores de Angatuba, no interior de São Paulo, uniu esforços para reformar e ampliar uma capela dedicada à memória de Maria Cordeiro, conhecida como a 'Menina Milagrosa'. A história da criança, que morreu tragicamente aos quatro anos em 1940, continua a inspirar devoção e relatos de milagres na região, motivando a comunidade a preservar seu legado.
A trágica história de Maria Cordeiro
Maria Cordeiro era filha de Victor Cordeiro dos Santos e Rosa Scábari, uma imigrante italiana, e vivia com a família em um cafezal no Bairro dos Leites, zona rural de Angatuba. Em 12 de dezembro de 1940, ela e seu irmão Oswaldo, de nove anos, foram buscar um cacho de bananas na casa de um vizinho. No caminho de volta, as crianças ficaram presas em um terreno em chamas após uma queimada no capinzal. Enquanto Oswaldo sobreviveu com queimaduras graves, Maria não resistiu e seu corpo foi carbonizado.
O incidente, reconstruído no livro 'Fandango do Miliano' da professora angatubense Maria Aparecida Morais Lisboa, baseia-se em entrevistas com familiares, incluindo o irmão Benedito. A menina era descrita como branca, de cabelos loiros e trançados, e sua morte marcou profundamente a comunidade local.
O surgimento da devoção e a construção da capela
Com o passar dos anos, o local do acidente tornou-se um ponto de devoção popular. Inicialmente, uma cruz foi erguida no local, e na década de 1960, o pedreiro Gumercindo Pires de Arruda construiu uma capela simples com tijolos e barro. Seu filho, Airton Pires de Arruda, relata que a obra foi realizada com dificuldades, utilizando carroças para transportar materiais, já que máquinas não conseguiam acessar a área facilmente.
A capela, embora modesta, passou a atrair visitantes de Angatuba e cidades vizinhas, que deixavam objetos como roupas, fitas e fotografias em agradecimento por graças atribuídas à menina. A devoção cresceu, com relatos de milagres, especialmente envolvendo curas de crianças, fortalecendo a fé dos moradores.
A reforma liderada por Sérvulo Angelo de Meira
Em 2024, Sérvulo Angelo de Meira, de 80 anos, decidiu iniciar uma reforma na capela após afirmar que sua filha foi curada de um tumor no intestino por intercessão de Maria Cordeiro. 'Fiz pedido para a 'Menina Milagrosa' ter dó da minha filha e, naquela noite, tive um sonho com ela, em que ela pediu para eu rezar dez terços na capelinha. Quando terminaram os dez dias, a minha filha estava curada', conta Sérvulo.
Mesmo sem experiência em construção, ele mobilizou a comunidade, e a reforma durou cerca de três meses, resultando em:
- Ampliação da capela com um barracão e cobertura
- Construção de dois banheiros
- Adição de um cômodo para guardar ferramentas e materiais de limpeza
A iniciativa atraiu doações e voluntários, como Airton José de Meira, de 56 anos, cujo avô, João Rocha, foi quem recolheu os restos mortais da menina. 'Fizemos uma parceria entre seis colaboradores. Recebemos algumas doações e conseguimos realizar a reforma', explica Airton, que também colocou um livro de visitas na capela, que já registrou mais de 3 mil assinaturas, incluindo pessoas de outras regiões e até do Paraguai.
Fenômenos e busca por beatificação
Além dos milagres, visitantes relatam sentir um cheiro de rosas emanando da cruz no interior da capela durante orações. 'Quando a gente está rezando o terço, fazendo orações, o cheiro fica mais perfumado. Isso muita gente já relatou', comenta Sérvulo.
A professora Maria Aparecida está coletando depoimentos de possíveis milagres para iniciar, junto à Igreja Católica, um processo de beatificação de Maria Cordeiro. O padre João Carlos Orsi, nascido em Angatuba, explica que a Igreja respeita a devoção popular, mas a canonização requer um processo rigoroso e comprovação de milagres. 'A Igreja tem muito respeito por esse tipo de devoção popular e não vai proibir. Mas também não vai canonizar apenas por isso, porque existe todo um processo que vai para Roma', afirma.
Impacto e disseminação da fé
A história de Maria Cordeiro, antes restrita à zona rural de Angatuba, agora se espalha para além da região, atraindo fiéis e fortalecendo a comunidade. Após a reforma, a capela passou a receber missas regularmente, simbolizando a união entre fé e esforço coletivo. 'É impressionante como a religiosidade popular se dissemina. É fé, posso dizer claramente que é fé', reflete a professora Maria Aparecida.
Essa iniciativa não apenas preserva a memória da 'Menina Milagrosa', mas também destaca o poder da solidariedade e da crença em transformar espaços e vidas, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações em Angatuba.



