Mãe de Santo se torna porta-voz contra intolerância e ergue santuário com estátua monumental de Belzebu
Em 2023, uma imagem considerada inusitada para muitos chamou a atenção da vizinhança de um bairro de Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Era uma estátua de Belzebu que havia sido fixada sobre o portão de uma casa e viralizou nas redes sociais. Três anos depois, a imagem segue lá, mas não está sozinha. A casa de Mãe Michelly da Cigana é repleta de imagens de entidades, santos, orixás e divindades de várias religiões.
Expansão do terreiro e criação do Santuário Nacional de Belzebu
Além disso, ela instalou em um sítio o Santuário Nacional de Belzebu, um local seguro para a prática da fé, protegido da ação de intolerantes. "A viralização ajudou a expandir o meu terreiro. Hoje, temos um espaço que se chama Santuário Nacional de Belzebu, na cidade de Viamão, que é um lugar onde eu me sinto segura", afirma Mãe Michelly ao g1.
"Lá, o meu cliente tem sigilo, tem segurança, pois somos muito atacados. Me proporcionou criar um espaço onde eu tenho todos os reinos para fazer um trabalho com segurança sem que eu ou meu cliente passemos por intolerância na rua", completa a líder religiosa. Ter todos os reinos em um espaço significa "buscar energias para fazer alguns trabalhos, como a cachoeira, a mata o cemitério", enumera.
Estátua monumental e Lago dos Orixás
O sítio também conta com figuras espirituais diversas. Inclusive, foi instalada uma estátua de Belzebu de cerca de 5 metros na propriedade. O local ainda conta com o Lago dos Orixás, criado em referência ao Dique do Tororó, único manancial natural de Salvador (BA), localizado ao lado da Arena Fonte Nova e famoso por seu espelho d'água com 12 esculturas de orixás flutuantes.
Preconceito e motivação para o santuário
Mãe Michelly fala sobre situações nas quais foi alvo de preconceito, casos que a motivaram a construir o santuário. "Houve vezes em que eu estava realizando um trabalho no cemitério, na encruzilhada ou no mato, e as pessoas chamavam a polícia, passavam de carro xingando, jogavam água. Já chegaram até a me atirar pedras", relata.
Porta-voz contra a discriminação religiosa
A Mãe de Santo conta que pôde expandir seus trabalhos a partir da viralização da imagem. Hoje, passa a ser uma referência religiosa e trabalha para desmistificar crenças na Umbanda, Quimbanda e na fé de matrizes africanas. "Para mim, essa viralização foi um ato divino. Fotos aleatórias são colocadas na internet todos os dias. Acho que ali teve o dedo da espiritualidade para apontar a possibilidade de eu ser uma porta-voz dessa fé, que é tão discriminada", afirma.
"É um grande presente poder desmistificar muitos pensamentos negativos que as pessoas têm em relação a Belzebu e à Quimbanda", destaca Mãe Michelly. A Mãe de Santo realiza diversos trabalhos em sua casa, que possui três salões:
- Um dedicado à Umbanda, religião brasileira que une elementos do catolicismo, espiritismo kardecista, orixás africanos e tradições indígena
- Um dedicado à Quimbanda, de matriz afro-brasileira focada no culto a Exus e Pombagiras
- Uma Casa de Oxum, focado somente na religião de matriz africana
Desmistificação e educação religiosa
Atuando como porta-voz, busca desmistificar preconceitos sofridos diariamente por quem segue a fé dessas doutrinas. "Acredito que tudo que as pessoas não conhecem, passam a desacreditar. Elas não estudam. Se não conhece, não existe. Vai muito da educação, dos pais que já não ensinam a respeitar não só a fé", comenta.
"Eu também sou mãe de um trans e vejo as pessoas não aceitarem a sexualidade, a espiritualidade, a fé", acrescenta a líder religiosa, destacando a intersecção entre diferentes formas de discriminação.
Segurança e medo da intolerância
Quanto mais a líder religiosa se torna conhecida, por um lado se torna uma referência para os devotos, mas ao mesmo tempo vira alvo de intolerantes. Por isso, não sai mais de casa sozinha. "Hoje, ando com segurança 24 horas quando eu saio para a rua por medo de encontrar esse tipo de pessoa louca que acha que pode fazer tudo por causa da fé", revela.
"Temos uma sala de segurança no sítio que monitora tudo — o meu terreiro, que são duas casas, o santuário, o próprio sítio. Não porque temos medo de assalto ou roubo, temos medo é da intolerância", finaliza Mãe Michelly, evidenciando os desafios enfrentados por praticantes de religiões de matriz africana no Brasil contemporâneo.



