Homenagem à advogada morta é interrompida por vizinho em Teresina, em caso de intolerância religiosa
Homenagem a advogada interrompida por vizinho em Teresina

Homenagem à advogada morta é interrompida por vizinho em Teresina, em caso de intolerância religiosa

Uma homenagem religiosa realizada em memória da advogada Letícia dos Santos Sousa, de 30 anos, foi abruptamente interrompida após um vizinho ameaçar os participantes em Teresina, capital do Piauí. O incidente ocorreu na noite de segunda-feira, 6 de maio, no bairro Real Copagre, localizado na Zona Norte da cidade, e tem gerado ampla repercussão devido às acusações de intolerância religiosa.

Detalhes do caso e denúncia formal

Núbia Batista, conhecida como Mãe Núbia de Xangô, que é mãe de santo e professora doutora universitária, registrou um boletim de ocorrência na manhã de quinta-feira, 9 de maio. Ela denunciou o episódio como um ato de intolerância religiosa, além de ameaça e constrangimento ilegal. A advogada Letícia faleceu no dia 28 de março, após passar mal e sofrer crises convulsivas no condomínio onde residia. Em sua memória, amigos e integrantes do terreiro Casa das Almas organizaram uma cerimônia de despedida, incluindo um ritual chamado "tambor de choro".

Segundo o relato de Núbia, o grupo estava realizando o ritual por volta das 21h30 quando foi interrompido por um vizinho, cuja identidade não foi divulgada. "Estávamos no tambor de despedida quando fomos interrompidos. Ele passou a gritar, ameaçar e filmar tudo. Para outras religiões pode parecer uma festa, mas, para nós, é uma forma de lidar com a morte", explicou a religiosa. Ela acrescentou que o homem afirmou que chamaria a polícia e fez declarações ofensivas direcionadas à prática religiosa do grupo.

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Repercussão e apoio jurídico

A situação atraiu a atenção de moradores da região, que saíram às ruas durante a confusão. Núbia destacou o impacto emocional do evento: "Nós não conseguimos viver o nosso luto em paz. Foi uma situação vexatória, com exposição e ameaças". O caso está sendo acompanhado de perto por comissões da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Piauí, incluindo os grupos de Direitos Humanos e de Liberdade Religiosa, que oferecem assistência jurídica às vítimas.

O advogado João Pedro Monteiro Cunha analisou os fatos e afirmou que eles podem se enquadrar na Lei nº 7.716/1989, que trata de crimes resultantes de preconceito por religião. Ele também mencionou a possibilidade de configuração de injúria racial, dependendo das declarações feitas durante o incidente. O boletim de ocorrência foi registrado com o apoio das comissões da OAB, e o caso segue sob análise detalhada para determinar as medidas legais apropriadas.

Contexto legal e social

A Constituição Federal brasileira garante explicitamente a liberdade de culto religioso, e a prática de intolerância religiosa pode ser punida conforme a legislação vigente. Este episódio em Teresina ressalta os desafios contínuos enfrentados por comunidades religiosas de matriz africana no país, que frequentemente relatam casos de discriminação e violação de seus direitos. A investigação em andamento busca não apenas responsabilizar os envolvidos, mas também promover um debate mais amplo sobre respeito e diversidade religiosa no Brasil.

Enquanto isso, a família e os amigos de Letícia dos Santos Sousa continuam a lidar com a perda, agora agravada por essa experiência traumática. A comunidade local tem demonstrado solidariedade, e espera-se que a justiça seja feita para garantir que tais incidentes não se repitam no futuro.

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