Gilberto Gil marca presença em ato inter-religioso após caso de intolerância contra Preta Gil
A realização de um ato inter-religioso no Ministério Público Federal em João Pessoa, nesta sexta-feira, representou um passo significativo no cumprimento do acordo firmado entre o órgão e o padre Danilo César de Sousa Bezerra. O religioso foi denunciado por proferir falas de intolerância religiosa contra a cantora Preta Gil, falecida recentemente. O evento contou com a participação de diversas figuras importantes, incluindo o pai da artista, Gilberto Gil, além de líderes católicos, protestantes, do candomblé e de outras tradições religiosas.
Momento de fraternidade e reparação no MPF
O ato foi encerrado com uma música da umbanda e um momento de fraternidade entre todos os representantes religiosos presentes. Para o Ministério Público Federal, a simbologia desse encontro marcou um novo momento de paz na Paraíba. Segundo o órgão, esta foi a primeira vez que um líder católico se desculpou publicamente por intolerância religiosa no estado, cumprindo assim parte do acordo estabelecido.
Durante o evento, a procuradora do MPF, Janaína Andrade, destacou a necessidade de dissociar a falsa ideia de que as religiões de matriz africana estão associadas ao mal. Gilberto Gil, que participou de forma online, agradeceu pelo "ato de reparação" e expressou seu desejo por mais compreensão e menos intolerância na sociedade. "Que sigamos daqui pra frente com mais compreensão, menos intolerância e melhor futuro nas nossas relações múltiplas, amplas de todos nós como indivíduos e sociedade", afirmou o artista.
Medidas adicionais e compromissos assumidos
Além da participação no ato, o padre Danilo César ainda precisa cumprir várias outras medidas para finalizar o acordo. Entre elas estão:
- Cumprimento de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa, com certificados válidos.
- Realização de resenhas sobre livros que abordam o combate à intolerância religiosa.
- Pagamento de uma prestação pecuniária no valor de R$ 4.863,00, destinada a uma associação de apoio a comunidades afrodescendentes.
O advogado da família Gil, Vinícius Assumpção, reiterou que a reparação do padre representa uma luta coletiva da sociedade contra o racismo religioso. "Uma reparação que vai para muito além da família e do individual e que representa também anseios coletivos de que o racismo religioso não seja praticado de forma impune", disse ele.
Contexto do caso e declarações polêmicas
O caso remonta ao dia 27 de julho, quando o padre Danilo César, durante uma homilia transmitida ao vivo pelo YouTube da paróquia de São José em Areial, citou a morte de Preta Gil. Ele associou a fé dela em religiões de matriz afro-indígenas a morte e sofrimento, fazendo comentários como: "Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil?". O vídeo foi retirado do ar após grande repercussão nas redes sociais.
As declarações foram consideradas preconceituosas pela Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria, que registrou um boletim de ocorrência por intolerância religiosa. O padre entrou em acordo com o MPF para não responder criminalmente, com o termo homologado pela juíza federal Cristiane Mendonça Lage. Caso descumpra os termos, sua confissão poderá ser usada como prova em uma eventual reabertura da ação penal.
Dom Dulcenio Fontes de Matos, bispo da Diocese de Campina Grande, responsável pela paróquia onde ocorreram as falas, emitiu uma carta reafirmando o compromisso institucional com o diálogo inter-religioso e o respeito mútuo entre as tradições religiosas.