Romulo Fróes apresenta 'Boneca russa' em data simbólica pós-Carnaval
Nesta quarta-feira de cinzas, 18 de fevereiro, o artista paulistano Romulo Fróes lança oficialmente seu novo álbum intitulado 'Boneca russa'. O trabalho chega ao público através do selo YB Music, marcando um recomeço artístico e pessoal em uma data estrategicamente escolhida para simbolizar renascimento após as cinzas do Carnaval.
Álbum conceitual nascido do fim de uma parceria
'Boneca russa' surge como um projeto profundamente pessoal, originado do término da união do músico com Alice Coutinho, sua parceira de vida e música durante muitos anos. O disco funciona como um inventário poético das ausências e feridas deixadas por esse amor que atravessou diversos Carnavais, transformando dor em arte através de treze composições inteiramente autorais e inéditas.
Em versos como "Agora foi, não vai mais voltar atrás / E seu bloco não para pra mim", da faixa "A hora mágica", Fróes resigna-se diante do fim irreversível. A referência carnavalesca permeia todo o trabalho, com alusões claras ao universo dos blocos e avenidas que agora ecoam vazios sem a presença da parceira.
Formato inusitado: voz e baixo que friccionam emoções
Produzido em parceria com Marcelo Cabral, 'Boneca russa' adota uma embalagem sonora incomum: apenas voz e baixo. A voz é de Romulo Fróes, enquanto Cabral assume o instrumento que fricciona o tempo todo, fazendo sangrar as feridas emocionais através de texturas que variam do elétrico e rascante ao percussivo.
Essa escolha minimalista aviva e tensiona canções de alta voltagem poética, como demonstrado em "A casa de pé" e "Vaso ruim". O baixo de Cabral emerge da alma profunda das composições, especialmente em momentos como o término de "O mesmo fim", onde a dor se manifesta através das cordas do instrumento.
Poesia torta que inventaria a dor sem dó
Romulo Fróes não poupa o ouvinte nem a si mesmo em sua exploração lírica. Em "A felicidade perdida", parceria com Rodrigo Campos, bamba do samba paulistano do século XXI, o poeta rima torto: "Água de rio parada no fundo do poço / Pele de choro na lágrima seca sem água / Não vale nada o berro enterrado na areia".
A música-título suplica: "Abra meu corpo, boneca russa, / Cave bem fundo até a ferida / Enche de ar o pulmão e tussa / O sangue da triste figura escondida". São versos que revelam camadas de dor como as de uma boneca russa, onde cada abertura expõe nova vulnerabilidade.
Samba-canção no passo torto característico
Embora possa ser caracterizado como um disco de samba ou samba-canção, 'Boneca russa' mantém o passo torto típico da obra de Romulo Fróes, sem cadências bonitas ou facilidades melódicas. O samba aqui se insinua mais nas intenções do compositor do que nas formas tradicionais, seguindo uma marcha lenta que flagra um homem no fim do mundo afetivo.
Faixas como "Renda portuguesa" e "Um domingo sem fim" parecem imersas em estado letárgico, refletindo a perda da pulsão de vida após o término amoroso. Em "Minha vida sem você", o poeta reflete: "Não vai mais doer / Nem desafinar / Não precisa crer / Amaldiçoar / O que não se vê / Não se pode imaginar".
Frestas de luz no fim do túnel emocional
Se todo Carnaval tem seu fim, a dor também cede espaço para pequenas aberturas de esperança. No caso de 'Boneca russa', a luz vem de Olga, filha de Romulo Fróes e Alice Coutinho, que dá nome à canção que encerra o disco com áudios da menina ao término da faixa.
"Olga" representa a promessa de vida que persiste no coração do artista após o arrastão de dores de amor. É como se o álbum sinalizasse que, mesmo após o fim da folia amorosa, tudo pode recomeçar na quarta-feira com o renascer das cinzas.
A capa do álbum, com desenho do próprio Romulo Fróes e design de Thiago Lacaz, complementa visualmente essa jornada de descobertas emocionais camada após camada, assim como as bonecas russas que dão título ao trabalho.



