Dupla musical anuncia álbum em tributo aos 60 anos dos afro-sambas
O cantor Marcos Sacramento e o violonista Zé Paulo Becker estão prestes a expandir sua parceria artística com o lançamento de um novo álbum ainda neste primeiro semestre de 2026. Este projeto fonográfico deriva diretamente do show que a dupla estreará em 5 de março, em apresentação única na casa Manouche, localizada no Rio de Janeiro. A iniciativa marca um reencontro significativo, ocorrendo 14 anos após o lançamento do álbum "Todo mundo quer amar", que os dois artistas gravaram em conjunto no distante ano de 2012.
Homenagem a um marco da música nacional
O cerne deste segundo trabalho em dupla é a celebração dos 60 anos do álbum seminal "Os afro-sambas de Baden e Vinicius", originalmente lançado em agosto de 1966 pela extinta gravadora carioca Forma. No palco, Sacramento e Becker não se limitarão ao repertório do disco sexagenário; eles também incorporarão outros afro-sambas históricos que ficaram de fora da compilação original, como as icônicas "Berimbau" e "Consolação", ambas compostas por Baden Powell e Vinicius de Moraes em 1963.
O álbum de estúdio, que está sendo gravado pelo cantor fluminense e pelo violonista carioca, promete contar com participações especiais de diversos nomes consagrados da MPB, enriquecendo ainda mais esta homenagem. O lançamento está oficialmente previsto para ocorrer ao longo do primeiro semestre do próximo ano, consolidando-se como um dos eventos musicais mais aguardados.
O legado perene dos afro-sambas
"Os afro-sambas de Baden e Vinicius" é, indiscutivelmente, um título antológico e profundamente influente na discografia brasileira. Sua relevância é tamanha que inspirou inúmeras regravações ao longo das décadas, incluindo a notável versão da cantora Mônica Salmaso com o violonista Paulo Bellinati, lançada em 1995. O disco original foi fundamental para consolidar o gênero musical que carrega em seu nome, apresentando um repertório majoritariamente inédito, fruto da genial parceria entre o violonista Baden Powell (1937–2000) e o poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913–1980).
As oito faixas que compõem o álbum histórico foram compostas entre 1962 e 1965, unindo a maestria instrumental de Baden – um violonista de importância capital – às letras coloquiais e dramaticamente poéticas de Vinicius. A lista inclui pérolas como:
- "Canto do caboclo Pedra Preta"
- "Tempo de amor"
- "Canto de Ossanha" (imortalizada pela gravação de Elis Regina em 1966)
- "Bocochê"
- "Canto de Xangô"
- "Tristeza e solidão"
- "Canto de Iemanjá" (com a voz simbólica de Dulce Nunes)
- "Lamento de Exu"
Arquitetura sonora e influências ancestrais
A produção do álbum contou com os arranjos e a regência do maestro César Guerra-Peixe (1914–1993), que estruturou as composições com uma ênfase marcante em instrumentos de percussão tradicionalmente associados aos terreiros de Candomblé, como agogô, afoxé, atabaque e bongô. Esta escolha não foi acidental; os ritmos e harmonias das religiões de matriz africana serviram como a principal inspiração para Baden e Vinicius na criação dos afro-sambas. A orquestração ainda incorporou sopros e, é claro, o violão essencial, criando uma textura sonora rica e complexa.
O produtor musical carioca Roberto Quartin (1941–2004), em parceria com o músico Wadi Gebara (1937–2019), assumiu a direção artística do projeto. A gravação ocorreu entre 3 e 6 de janeiro de 1966, no Rio de Janeiro, e contou com as vozes do próprio Vinicius de Moraes, do Quarteto em Cy e de um coro misto, conforme registrado na ficha técnica do LP original.
Uma reverberação que atravessa décadas
Este álbum representou o ápice da parceria entre Baden Powell e Vinicius de Moraes, destacando de forma vigorosa a importância da matriz ancestral africana na formação da música brasileira. Ele se alinha a movimentos similares pioneiros por figuras como Pixinguinha (1897–1973) e Moacir Santos (1926–2006), cujo álbum "Coisas" (1965) também é um marco do acervo da gravadora Forma.
O fato de que, seis décadas depois, artistas da estatura de Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker decidam resgatar e reinterpretar este repertório é a prova mais eloquente de que "Os afro-sambas de Baden e Vinicius" continua a ecoar e a inspirar novas gerações. O show e o futuro álbum não são apenas uma homenagem, mas um testemunho da vitalidade e da relevância perene desta obra fundamental para a cultura musical do Brasil.



