Nanda Tsunami: Como a rapper mistura sexo, espiritualidade e terapia no rap nacional
Nanda Tsunami une sexo, espiritualidade e terapia no rap brasileiro

Nanda Tsunami: A fusão de sexo, espiritualidade e terapia no cenário do rap brasileiro

O que acontece entre quatro paredes deve permanecer confidencial? Para a rapper Nanda Tsunami, essa premissa nem sempre se aplica. Com o hit "P.I.T.T.Y (Parecendo Uma Cafetina)" acumulando impressionantes mais de 25 milhões de reproduções nas plataformas digitais, a artista paulista vem estabelecendo seu espaço no rap nacional através de uma mistura ousada entre sexualidade, espiritualidade e terapia.

Das origens ao estrelato: A trajetória de Fernanda Xavier Ferreira Santana

Nascida e criada no centro de São Paulo, Fernanda Xavier Ferreira Santana, de 26 anos, sempre nutriu o sonho de se tornar artista. Durante sua infância e adolescência, alimentou-se de DVDs piratas com clipes internacionais de pop, samba e black music dos anos 2000. Contudo, foi apenas durante o período pandêmico da Covid-19 que ela começou a compor suas primeiras letras.

A faixa inaugural "Novinho Chora" emergiu de um término conturbado, mas mais do que expressar sentimentos reais, a artista escreveu sobre o que desejava sentir, demonstrando atitude e confiança que já apontavam para a estética que desenvolveria posteriormente. Desde esse marco inicial, Nanda lançou o EP "Tsunami Season" em 2024 e seu álbum de estreia "É Disso Que Eu Me Alimento" em 2025, projetos que transitam habilmente entre funk paulista, trap, R&B, afrobeats e música eletrônica.

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Sua relação com o funk tem raízes na adolescência. Criada em uma família conservadora, ela consumia o gênero musical fora do ambiente doméstico. O apelido "Tsunami" surgiu como homenagem à faixa "Angra dos Reis", do funkeiro MC Daleste, tragicamente assassinado em 2013.

Sexualidade como narrativa de empoderamento feminino

A sexualidade constitui um dos pilares fundamentais da obra da rapper. Em vez de tratar o sexo como tabu ou mera provocação superficial, Nanda Tsunami o utiliza como ferramenta narrativa e símbolo potente de autonomia feminina. Em "P.I.T.T.Y", faixa que viralizou nas redes sociais, a artista subverte a lógica tradicional do rap, historicamente marcada por discursos masculinos de dominação.

A música nasceu como resposta direta ao verso "Nóis te quebra e te devolve para o frango que te ama" do funkeiro MC Negão Original. No refrão, ela inverte completamente a dinâmica e ironiza a postura de homens que objetificam mulheres. A faixa estabelece diálogo com "P.I.M.P", de 50 Cent, ao samplear a música e utilizar referências ao universo das cafetinas para criticar os bastidores da indústria musical, onde, segundo a própria artista, mulheres frequentemente enfrentam desvalorização ou assédio.

A sigla P.I.T.T.Y também representa uma homenagem à cantora Pitty, citada explicitamente na letra. A própria rockeira entrou na brincadeira nas redes sociais, ampliando significativamente a repercussão da faixa.

Para Nanda, abordar o tema do sexo significa igualmente discutir identidade: ela cresceu sob o peso da sexualização precoce e, ao longo dos anos, começou a questionar profundamente o que constituía desejo genuíno versus expectativas impostas externamente. "É entender o que eu realmente gosto e o que eu faço só para agradar, sabe?... Quando você se abre para o sexo, na visão de algumas pessoas, é como se todas as suas coisas boas caíssem por terra", revelou em entrevista.

Em suas composições, o sexo não aparece associado à culpa, mas como extensão da chamada "divindade feminina", conceito que conecta corpo, espiritualidade e autoestima de maneira integrada.

Misticismo, meditação e terapia no processo criativo

A espiritualidade entrou na vida da artista paralelamente ao início de sua carreira musical. Práticas como meditação guiada e Ho'oponopono tornaram-se parte integrante de seu processo criativo. A faixa de abertura do EP "Tsunami Season" recria uma sessão completa de meditação, conduzindo o ouvinte por uma experiência quase sensorial.

Este não constitui um recurso isolado: a busca constante por autoconhecimento atravessa toda sua discografia. "Você entende que as respostas estão dentro da sua cabeça, mas é um processo de refinamento para saber o que é resposta e o que é loucura", reflete a artista.

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Essa perspectiva terapêutica manifesta-se também nas letras que abordam insegurança e vulnerabilidade. Em "Pq Você Não Me Liga?", do álbum "É Disso Que Eu Me Alimento", ela questiona se a rejeição do parceiro relaciona-se com seu corpo, seu jeito ou sua cor de pele.

No novo single "Faço Acontecer", Nanda aprofunda a estética mística que vem construindo ao longo da carreira. No clipe, ela surge como uma espécie de feiticeira contemporânea, espalhando energia e transformação por onde passa, quase como um ritual pop de "manifestar coisas boas" para quem cruza seu caminho. Entre batidas eletrônicas e versos explícitos, há uma reflexão constante sobre autoestima e saúde emocional.

Comunidade e identificação com o público

Outro fator decisivo para o crescimento exponencial de Nanda Tsunami foi a formação de uma comunidade de fãs, majoritariamente feminina. Suas letras, baseadas em experiências pessoais ou desejos não realizados, criam identificação direta com ouvintes que a enxergam como amiga ou irmã mais velha.

"Se hoje eu não preciso bater ponto e pegar metrô, é porque tem gente consumindo meu trabalho. É uma relação de troca genuína", afirma a rapper. A proximidade com o público constitui parte fundamental de sua estratégia. Diferentemente de muitos artistas que constroem personagens distantes, Nanda aposta em uma comunicação direta e emocionalmente autêntica.

Mais do que simplesmente produzir hits, Nanda Tsunami constrói uma identidade artística coesa que une erotismo, misticismo e autoconhecimento. Se em uma primeira audição suas músicas podem soar apenas como provocação sobre batidas dançantes, um olhar mais atento revela uma narrativa complexa sobre poder, autoestima e reconstrução pessoal.

Ao colocar o sexo no centro do diálogo musical, conectando-o à espiritualidade e à terapia, ela desafia vigorosamente a ideia preconcebida de que desejo feminino e profundidade não podem coexistir. Para a rapper, talvez seja justamente o contrário: o que acontece entre quatro paredes também precisa, necessariamente, ser discutido fora delas.