Diretor musical original critica alterações em álbum relançado de Elis Regina
O pianista, arranjador e diretor musical Cesar Camargo Mariano manifestou publicamente sua insatisfação com a edição remixada e remasterizada do álbum "Elis", gravado por Elis Regina em 1973 e relançado na última terça-feira, 17 de março. A nova versão foi orquestrada por João Marcelo Bôscoli, filho primogênito e herdeiro da cantora, em parceria com o engenheiro de som Ricardo Camera, sob aval da gravadora Universal Music, como parte das celebrações pelos 81 anos de nascimento da artista.
Protesto detalhado nas redes sociais
Em publicação extensa nas redes sociais, Mariano expressou "tristeza" ao ouvir o trabalho, afirmando que meses de criação conceitual, arranjos, execuções e planos de gravação foram "jogados no lixo". O músico destacou que questões técnicas não são passíveis de alterações por terceiros após a finalização de uma obra.
Entre as mudanças criticadas estão:
- Alteração no final da faixa "É com esse que eu vou", onde o track do teclado RMI foi antecipado em 4 compassos
- Inclusão de duas guitarras na faixa "Doente, Morena", criando um "duelo atrapalhado"
- Corte súbito na voz de Elis em "Oriente" na frase "a possibilidade de ir pro Japão"
- Percussão exagerada e inclusão de tímpano em "Caçador de esmeraldas"
- Problemas de sincronismo e alteração de timbres em várias faixas
Debate ético sobre interferência em obras artísticas
O protesto de Mariano reacendeu a discussão sobre os limites éticos da interferência alheia em obras de artistas, especialmente aqueles já falecidos. Do ponto de vista jurídico, não há contestação possível, já que João Marcelo Bôscoli é herdeiro legal de Elis Regina e os fonogramas pertencem à Universal Music, que adquiriu o acervo da Philips/Polygram em 1999.
A questão central, portanto, é de natureza ética e artística. Mariano argumenta que não se pode alterar tecnicamente uma obra finalizada a ponto de modificar planos de mixagem, voz, arranjos, timbres de instrumentos escolhidos a dedo, incluir instrumentos rejeitados ou mutilar dinâmicas originalmente bem pensadas.
Perspectivas divergentes sobre preservação e inovação
Enquanto Mariano defende a integridade da obra original concebida em conjunto com Elis Regina, João Marcelo Bôscoli tem o direito de propor uma nova mixagem de um álbum gravado em época de limitações técnicas. O filho da cantora busca oferecer uma experiência sonora atualizada, utilizando recursos tecnológicos modernos.
Mariano ressaltou que sempre foi favorável à tecnologia quando bem utilizada, lembrando que em 2004 produziu a remixagem e remasterização do álbum "Elis & Tom" em formatos 5.1 e DVD Áudio, mantendo respeito absoluto pela obra original.
Importância da preservação da versão original
Especialistas defendem que um álbum possa ser remixado desde que a versão original continue disponível aos ouvintes, funcionando como referência definitiva. A edição remixada deveria ser apresentada como alternativa sonora, nunca como substituição da concepção artística inicial.
"Futuras gerações têm direito a ouvir o disco tão como ele foi concebido", afirma Mariano em seu manifesto. Após 53 anos do lançamento original, apenas ele pode analisar com precisão o que foi alterado na concepção dos arranjos, já que Elis Regina não está mais presente para se posicionar.
O caso do álbum "Elis" ilustra o delicado equilíbrio entre inovação tecnológica e preservação artística, entre direitos legais de herdeiros e respeito à intenção criativa original. Independentemente dos ganhos técnicos possíveis, a referência de qualquer obra musical permanece sendo sua edição original, testemunho histórico de um momento criativo único entre artista e diretor musical.



