Lady Gaga aos 40 anos: a artista que transformou o pop em arte performática
Quando Lady Gaga surgiu no final dos anos 2000, ela provocou ondas de choque no universo da música. Para muitos críticos, suas ações pareciam pura provocação. Hoje, olhando para trás, fica claro: Lady Gaga sempre pensou o pop como arte performática. Foi assim que ela mudou de forma duradoura não apenas a música pop, mas também o mundo dos videoclipes e a própria noção de celebridade.
Das ruas de Nova York ao estrelato mundial
Nascida Stefani Joanne Angelina Germanotta em 28 de março de 1986, em Nova York, Lady Gaga cresceu em Manhattan, começou cedo no piano e, ainda adolescente, já escrevia suas próprias músicas. Amante do teatro e dos musicais, ela gostava de chamar atenção com sua extravagância, circulando pela descolada Lower East Side com roupas consideradas malucas para a época. Mesmo entre tantos excêntricos, ela se destacava – um contraste marcante com sua formação em uma escola católica de elite, onde se formou com excelentes notas.
Em 2005, participou de um concurso musical, apresentada como uma "cantora e compositora muito talentosa". Sentou-se descalça ao piano, tocou duas músicas e ficou em terceiro lugar. Mesmo assim, seu talento como compositora chamou atenção, levando-a a ser contratada como autora. O produtor Rob Fusari, que trabalhou com ela por muito tempo, comparava sua extravagância com a de Freddie Mercury. Para cumprimentá-la, sempre cantava "Radio Gaga", do Queen, fazendo com que cada vez mais pessoas ao seu redor a chamassem de "Gaga". Era natural que ela adotasse esse nome artístico ao lançar seu primeiro álbum, The Fame, sob o qual se tornaria um fenômeno mundial.
Pop como performance: a revolução dos videoclipes
Enquanto superestrelas como Rihanna, Christina Aguilera, Beyoncé e Gwen Stefani dominavam o pop, surgiu Lady Gaga, oferecendo ao soul e ao R&B da época um eletropop pulsante. Just Dance subiu devagar, mas de forma constante, ao topo das paradas em 2008, seguida por Poker Face e Bad Romance. Mas o decisivo não era só a música, e sim o conjunto. Cada aparição era um conceito, cada look uma narrativa. Ela brincava com identidade, gênero, persona e realidade de forma performática, redefinindo assim o que significa ser um "popstar".
Gaga revitalizou também os videoclipes, que já davam sinais de desgaste. Bad Romance, por exemplo, não é só um clipe, mas um manifesto visual, com alienígenas em trajes de látex, sapatos absurdos e chapéus extravagantes. Telephone é praticamente um curta-metragem ambientado em uma prisão feminina. Gaga transformou videoclipes em uma forma de arte própria – grandiosa, exagerada, cuidadosamente encenada. Milhões de cliques no YouTube tornaram seu universo visual global, e com Born This Way, ela se afirmou de vez como ícone na era da internet.
Moda como linguagem política e artística
Poucas artistas usaram a moda de forma tão consistente e significativa. O famoso vestido de carne – feito de carne bovina crua, usado por ela no MTV Video Music Awards de 2010 – não foi uma piada, mas uma mensagem política. Em entrevista à apresentadora Ellen DeGeneres, ela explicou que o look fazia parte de seu protesto contra a política militar americana, especificamente contra a restrição de direitos de soldados homossexuais. A partir desse momento, Gaga se consolidou também como ícone da moda excêntrica e intransigente, onde suas roupas eram sempre parte da narrativa.
Reinvenção constante: do jazz ao cinema
Lady Gaga nunca se prendeu a um único estilo. A persona extravagante foi deixada de lado pela primeira vez em 2014, quando lançou um álbum de jazz com o crooner Tony Bennett, Cheek to Cheek. Nele, Gaga mostrou suas habilidades como cantora de jazz, convencendo sem truques de moda ou elementos surreais. Continuou conquistando milhares de fãs: foi seu terceiro álbum número 1.
Como atriz, ela já havia aparecido quando jovem na série de TV Família Soprano, mas em 2018 veio o grande papel. No remake de Nasce uma Estrela, Gaga seguiu os passos de Barbra Streisand e Judy Garland. Pelo dueto Shallow, com Bradley Cooper, ganhou um Oscar. Depois vieram papéis em Casa Gucci e Coringa: Delírio a Dois, consolidando Gaga como uma atriz de peso.
Influência e ativismo: além da música
Lady Gaga já ganhou 16 Grammys, incluindo um em fevereiro de 2026 por seu sétimo álbum, Mayhem, como melhor álbum vocal. Cantou no Superbowl como artista principal em 2017 – e retornou ao palco do show de intervalo da NFL em 2026, ao lado de Bad Bunny, com uma versão em salsa de Die With A Smile. Também performou na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris e na posse do ex-presidente dos EUA Joe Biden.
Em maio de 2025, entrou no Guinness Book pelo maior público da história de uma artista feminina, com o show gratuito que parou Copacabana, no Rio de Janeiro, alcançando, segundo a publicação, 2,5 milhões de presentes. Ela sempre foi aberta sobre temas pessoais, falando cedo sobre saúde mental, ansiedade, depressão e a pressão pública. Em muitas entrevistas, relatou ter sofrido violência sexual quando jovem. Em 2017, revelou sofrer de fibromialgia, uma doença crônica de dor, que a levou a cancelar sua participação no Rock in Rio daquele ano.
Com sua mãe, fundou a Born This Way Foundation, dedicada à saúde mental e ao combate ao bullying, reflexo direto de suas próprias experiências. Sua vida pessoal é relativamente controlada – ela separa claramente a artista da pessoa real. Relacionamentos, como com o ator Taylor Kinney ou o empresário Michael Polansky, vieram a público, mas sem espetáculo. Ela já declarou várias vezes sua bissexualidade e é uma defensora ativa da comunidade LGBT+.
Em um show em Tóquio, em janeiro de 2026, criticou abertamente a atuação dura da agência de imigração dos EUA, cujas operações resultaram em mortes. "Pedimos que mudem de rumo e tenham compaixão por todas as pessoas em nosso país", afirmou. Aos 40 anos, Lady Gaga não apenas realizou uma carreira impressionante, mas deu ao pop uma mensagem clara: postura, arte e ativismo podem caminhar juntos.



