Fã há 50 anos, fotógrafa se torna guardiã do maior acervo de Chitãozinho e Xororó
Fã há 50 anos vira guardiã do acervo de Chitãozinho e Xororó

O amor de fã transformou a vida da fotógrafa Rosa Marcondes, de 61 anos. A devoção por Chitãozinho e Xororó, que dura quase 50 anos, a fez largar a carreira de contadora para se tornar a guardiã do maior acervo histórico sobre a dupla sertaneja.

Em um galpão em casa, Rosa guarda um vasto material. São 160 fitas VHS com quase mil horas de gravações, recortes de jornais e objetos raros, como uma linha de shampoos da dupla. O acervo inclui até um álbum de fotos pessoais, que foi um presente da mãe dos cantores.

Amor de décadas

O amor de Rosa por Chitãozinho e Xororó está prestes a completar bodas de ouro. São quase 50 anos desde a primeira vez que ela viu a dupla e se apaixonou à primeira vista. Foi em 1978, em um show da festa da prefeitura de Mirassolândia (SP). Rosa morava em um sítio na cidade e tinha apenas 12 anos.

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Desde então, ela cultivou esse amor de fã com muita dedicação. Na adolescência, chegava a trabalhar na colheita de café e laranja para juntar dinheiro e ir aos shows da dupla, que aconteciam em circos. Dez anos depois, em 1988, ela começou a acompanhar os cantores de forma mais assídua. Em um show no Palace, em São Paulo, ela começou a gravar fitas cassetes das músicas que tocavam no rádio de madrugada.

Foi um marco tanto na carreira de Chitãozinho e Xororó — ao representar o alcance nacional da dupla após o sucesso de “Fio de Cabelo” (1982), em uma época em que o sertanejo ainda não tinha a força de hoje — quanto na de Rosa. O ingresso foi presente dos irmãos, que a acompanharam na apresentação mesmo preferindo o rock do RPM ao sertanejo. “Eu chorei o show inteiro. Estava na primeira fileira”, lembra. “E aí eu falei: ‘Esses caras são muito bons. Vou começar a acompanhar’”.

Missão de vida

Na década de 1990, Rosa começou a trabalhar para a imprensa. Com a credencial de fotógrafa, o acesso aos eventos e bastidores ficou maior. Logo, virou figurinha carimbada entre os fãs de Chitãozinho e Xororó. Em 2002, veio o reconhecimento oficial. Naquele ano, Chitãozinho e Xororó lançaram sua biografia e a autora, Ana Neva, conheceu Rosa e percebeu que ela tinha material suficiente para escrever outra biografia inteira sobre a dupla.

Foi no lançamento do livro em Campinas (SP) que a dupla percebeu a dimensão do trabalho da fã. Durante a sessão de autógrafos, a escritora perguntou a Chitãozinho e Xororó se eles conheciam Rosa. “Claro que a gente conhece”, responderam. Mas Rosa lembra que Ana Neva fez questão de esclarecer: “Não, não. Vocês a conhecem como fã — que ela realmente é. Mas conhecem a história da Rosa Marcone? Sabem que este livro, que vocês viram e até revisaram comigo, tem muita coisa aqui dentro que é dela?”

Hoje, responsável pelo acervo oficial de Chitãozinho e Xororó, Rosa reúne um material que inclui fotos originais que nem os próprios artistas possuem graças à dona Araci, mãe da dupla. Ela morreu em 2010, aos 76 anos, após um infarto, mas chegou a conhecer a fotógrafa e lhe confiou uma tarefa muito especial. Em uma das vezes em que acompanhou os filhos, ela chamou Rosa para uma conversa e lhe entregou uma sacola cheia de fotos e objetos pessoais de Chitão e Xororó. “Ela disse: ‘Um dia eu vou embora, e gostaria que você guardasse isso. Porque eu sei que, se ficar em um escritório, vai se perder’”, lembra a fotógrafa.

Rosa se tornou a guardiã dessas memórias tão preciosas. Anos mais tarde, durante uma gravação, Chitãozinho e Xororó se emocionaram ao folhear o álbum, reconhecendo amigos e familiares. Ao perguntarem como a fotógrafa tinha aquele material, ela contou que havia sido entregue por dona Araci. Mais do que fotos e fitas, Rosa guarda um respeito pelos ídolos que o tempo não desgasta. Ela se define como alguém que “vestiu a camisa” e afirma que será a “última a abandonar o barco”. Preservar a memória da dupla tornou-se uma missão de vida. “Minha escola é Chitãozinho e Xororó. Pra mim eles são referência de tudo. De trabalho, de ética e de família”, afirma.

Esta história faz parte de uma série de reportagens sobre música sertaneja que marca o lançamento do concurso cultural “ÉPra Cantar”. Nesta edição, a dupla vencedora vai se apresentar na Festa de Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina.

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