Céu celebra 20 anos de carreira e reflete sobre trajetória única na música brasileira
Com mais de duas décadas dedicadas à música, a cantora Céu participou de uma entrevista especial para o programa g1 Ouviu, nesta quarta-feira (21), onde compartilhou insights profundos sobre sua jornada artística. A conversa, disponível nas plataformas digitais do g1, no YouTube, no TikTok e em serviços de áudio, marcou o aniversário de 20 anos de seu álbum de estreia, homônimo, que a projetou no cenário musical ao misturar MPB, sons alternativos e influências eletrônicas.
Disco atemporal e reconhecimento internacional
Céu expressou orgulho ao afirmar que seu trabalho inicial envelheceu muito bem, mantendo-se relevante tanto musical quanto tematicamente. "Já tinha um pensamento no lugar do feminismo", destacou ela, referindo-se às letras do álbum. A artista relembrou com carinho a indicação ao Grammy mundial, que considerou uma conquista significativa na época. "O disco acabou virando uma antena, captou uma mudança na música brasileira que eu vejo nas novas gerações", refletiu.
No entanto, Céu também abordou os desafios contemporâneos do mercado musical, especialmente com o advento das redes sociais. Ela descreveu a necessidade de fazer um "equilibrismo" entre a criação artística e a autopromoção. "A coisa do artista começar a se autopromover, ser creator... isso foi muito difícil pra mim. Você se dedica... faz um álbum e não é suficiente?", questionou.
Filiação musical e negação do rótulo de nepobaby
Filha de Edgard Poças, maestro e compositor conhecido por suas músicas no programa Balão Mágico, Céu cresceu em um ambiente profundamente musical. Ela contou que precisou de um distanciamento para encontrar sua própria voz. "Eu pensava: 'Quem sou eu para fazer música?'", admitiu. Um período de estudos em Nova York foi crucial nesse processo. "Eu me senti acolhida e muito tranquila para pensar quem era eu, o que era a música brasileira para mim. Foi uma matéria-prima para escrever o primeiro disco".
Apesar dessa herança familiar, Céu foi enfática ao negar o rótulo de "nepobaby". "Meu pai me dava aula. Quando eu falei que queria fazer música, ele ficou desesperado", revelou. Ela argumenta que seguiu uma linhagem musical distinta e teve uma trajetória muito particular. "Eu sou de outra linhagem musical. Mas por isso, não sei se sou uma nepobaby, porque fiz uma trajetória muito diferente dele. No final, na minha opinião, ele tinha que ser muito mais reconhecido. Eu não acho que tive privilégios no lugar de nepobaby. Mas no lugar de ter alcance à cultura, aí sim".
Relação com a MPB e crítica aos rótulos
A cantora sempre demonstrou desconfiança em relação à categorização rígida de sua música. "É do mercado, tem seu contorno, tem sua necessidade. Mas limita", opinou. Ela elogiou artistas contemporâneos como Ana Frango Elétrico e Tim Bernardes, e compartilhou uma experiência marcante: pedir a Caetano Veloso que compusesse uma música para ela, resultando em "Pardo", do álbum "Apká!". "Isso aí eu atribuo ao puerpério", brincou. "Mas eu acho que os compositores gostam desse desafio".
Céu também falou sobre seu compromisso em manter a música brasileira, em português, circulando pelo país. Ela criticou a falta de reconhecimento do público nacional pela própria produção musical. "Eu não estava me vendo como uma menina que ia sair do Brasil. A música brasileira é muito poderosa, é um ativo, é PIB nacional", afirmou. Comentando a recente extinção do rótulo de "world music", ela questionou: "World para quem? Para mim, você que é world".
Maternidade e os desafios na carreira artística
Mãe de dois filhos, Céu abordou as dificuldades de conciliar a vida familiar com a profissão. Quando ficou grávida pela primeira vez, ela não encontrou o apoio necessário para continuar sua carreira. "Eu cheguei a escutar: 'Vamos resolver esse negócio'", revelou. No entanto, a maternidade trouxe transformações positivas. "Para mim, se tornar mãe deu um brilho e só ajudou em termos de confiança".
Ela reconhece que a situação está melhorando, especialmente nos bastidores da indústria. "Eu acho que existe uma nova geração com um outro olhar. As próprias mulheres estão entendendo mais isso", observou. Céu enfatiza a importância da educação contínua nesse processo. "Eu estou sempre lendo, me letrando, até porque eu tenho um filho homem e uma filha mulher. É muito letramento para fazer essa mudança, ainda está muito na base. Eu torço para que a gente encontre uma forma de trabalhar isso tudo que não seja agressiva".