Empreendedora gaúcha aposta em insetos como alimento nutritivo do futuro
A busca por fontes proteicas sustentáveis e alternativas ganha um novo capítulo no Rio Grande do Sul com uma iniciativa inovadora. Adriana Bender, CFO e cofundadora da startup Insect Protein – Produtos Sustentáveis, está liderando um movimento para transformar insetos em alimentos para consumo humano, uma prática já consolidada em outros continentes mas ainda incipiente no Brasil.
Da ração animal para a mesa dos brasileiros
A empresa gaúcha já produz petiscos e farinhas utilizando o Tenebrio Molitor, popularmente conhecido como larva-da-farinha. Atualmente, esses produtos são comercializados exclusivamente como ração animal para pets, mas a visão da empreendedora é mais ambiciosa. "No Brasil, só é permitido para alimentação animal, mas fora ele já é consumido na Ásia toda há muito tempo", explica Adriana Bender, que participou recentemente do South Summit Brazil em Porto Alegre para apresentar sua proposta.
A empreendedora destaca que o inseto já foi reconhecido como alimento seguro na Europa desde 2023, o que abre precedentes para sua regulamentação no mercado brasileiro. "Este inseto é considerado um alimento seguro na Europa desde 2023. Então, é considerado lá um alimento. Estamos fazendo pesquisas científicas para daí tentarmos uma regularização para o consumo humano", relata a empresária.
Barreiras culturais e nutricionais
Para Adriana Bender, o maior desafio não está nas exigências sanitárias, mas na resistência cultural dos brasileiros. "Hoje, temos uma barreira cultural muito grande. Quando a gente fala em insetos comestíveis, todo mundo se apavora, já pensa que vai matar", comenta. A empreendedora busca desmistificar essa percepção, destacando as qualidades nutricionais do inseto.
Segundo ela, a larva-da-farinha apresenta características nutricionais impressionantes:
- 53% de proteína na forma integral
- 30% de gordura, principalmente ômega 3 e ômega 6
- Alta concentração de nutrientes essenciais
"Mas nem todo inseto é uma praga. Esse é um inseto muito nutritivo e muito proteico", enfatiza a cofundadora da Insect Protein.
Certificação e produção controlada
A startup gaúcha já conquistou um marco importante: é a única empresa no Brasil certificada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para criar o Tenebrio Molitor. "Temos todos os rigores da legislação, da regulamentação que é necessária. Como o Mapa é muito exigente, nós levamos um ano e meio para conseguir a certificação", afirma Adriana Bender.
A produção ocorre em ambiente controlado, embora o inseto tenha origem natural no país. "A gente cria em ambiente controlado, mas ele existe na natureza. Ele é uma praga dos moinhos de trigo. Ele veio da Europa, com o trigo. Mas hoje ele é natural aqui, ele já existe aqui há muito tempo", explica a empreendedora.
Inovação gastronômica em desenvolvimento
Durante o South Summit Brazil, a Insect Protein apresentou uma criação que ilustra o potencial gastronômico do inseto: um brownie de chocolate que incorpora de 10 a 15% de farinha da larva desidratada. Esta receita inovadora resulta de uma parceria com o IFRS de Erechim e da pesquisadora Luana Rampi, desenvolvida no ano anterior.
Enquanto aguardam a autorização para consumo humano, os produtos da empresa continuam disponíveis no mercado pet. Os biscoitos para cães já são uma realidade comercial, servindo como porta de entrada para uma possível expansão futura.
A trajetória da Insect Protein representa um caso emblemático de como a inovação alimentar pode encontrar resistências culturais mesmo quando apresenta benefícios nutricionais e ambientais comprovados. O desafio da empreendedora gaúcha não é apenas técnico ou regulatório, mas principalmente de transformação de hábitos alimentares enraizados na cultura brasileira.



