Ex-nadadora Joanna Maranhão enfrenta xenofobia contra filho de 6 anos na Alemanha
Joanna Maranhão denuncia xenofobia contra filho na Alemanha

A ex-nadadora olímpica Joanna Maranhão teve que explicar ao filho Caetano, de 6 anos, que ele não seria separado da família após um colega de escola ameaçar chamar a polícia para deportar seus pais da Alemanha. Maranhão reside há três anos e meio em Potsdam, no leste do país, com o filho e o marido, o ex-judoca Luciano Corrêa.

O episódio de xenofobia

Caetano, que está no primeiro ano do ensino fundamental, confessou à mãe no último sábado (9) que sofreu um ataque xenofóbico no dia anterior. "Ele me contou que um colega da escola tinha chegado para ele e dito que iria chamar a polícia para mandar o pai e a mãe dele de volta para o país deles", relata Maranhão. O menino ficou muito assustado, imaginando um cenário de deportação e separação dos pais. "Ele não tem noção de imigração, fronteira e política", disse a ex-nadadora pernambucana em entrevista à BBC News Brasil. "Não é para ser uma realidade na vida de uma criança de 6 anos."

Reação da escola e contexto político

Joanna levou o caso à escola, que prometeu abordar o assunto com os alunos e implementar mais políticas antirracismo. "O Caetano não se parece fisicamente com a média do alemão, né? O meu marido é um homem negro e eu sou uma pessoa parda", afirma ela, destacando que o caso envolve tanto xenofobia quanto racismo. A professora da turma confirmou que o pai do colega que proferiu os insultos tem forte postura anti-imigração e é apoiador do partido AfD (Alternativa para a Alemanha). A legenda foi classificada como organização de "extrema direita" pelo Departamento Federal de Proteção da Constituição do país, o Verfassungsschutz, no ano passado. Em relatório, o órgão observou que a AfD não considera pessoas com "origens migratórias de países predominantemente muçulmanos" como membros plenos da sociedade alemã.

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Reflexões e ações de Joanna

"É muito duro esse tipo de coisa", disse Joanna. "Não acho muito cruel somente com Caetano, eu acho cruel com essa criança também, né? Criança é um jardinzinho em que a gente pode plantar muita coisa, inclusive erva daninha." Após o episódio, Caetano voltou à escola e levou bolinhos feitos por ele e sua mãe para toda a sala, inclusive para o colega que ofendeu sua família. A ex-nadadora acredita que a escola é o melhor lugar para transformar uma criança influenciada pelo preconceito dos pais. "A escola é o ambiente que pode salvar e resgatar essa criança de não se tornar um pequeno nazista", disse. No entanto, Joanna admite preocupação com o bem-estar e as interações futuras de Caetano com o colega. "Eles vão estar se vendo todos os dias, será que vai acontecer de novo? Será que a professora vai conseguir evitar que isso aconteça?", questiona.

Carreira e ativismo de Joanna

Joanna Maranhão representou o Brasil em quatro edições dos Jogos Olímpicos, conquistando três medalhas de ouro e cinco de bronze em Jogos Pan-Americanos. Em 2008, ela denunciou abuso sexual sofrido aos nove anos por seu treinador, tornando-se uma das principais vozes na luta contra a violência sexual e a pedofilia, especialmente no esporte. Atualmente, integra a organização Sport & Rights Alliance, que defende direitos humanos no esporte.

Diálogo com o filho

Joanna afirma ter ficado surpresa com o relato do filho. "Eu confesso que me faltou vocabulário para falar disso, sabe? Eu não estava preparada para ter essa conversa com ele", disse. Ela explicou a Caetano que a família pertence ao lugar onde mora e que a polícia não pode separá-los, já que possuem todos os documentos necessários para viver e trabalhar na Alemanha. "Ele perguntou: 'Mas a polícia pode vir?'. E aí eu falei: 'Alguém pode chamar a polícia, mas a polícia vai chegar e não vai acontecer nada'", relata. Joanna também conversa frequentemente com o filho sobre diversidade racial e linguística, cultivando o orgulho pelas raízes brasileiras. "Caetano tem muito orgulho de ser brasileiro [...] e a gente tem uma conversa de que falar muitos idiomas é o superpoder dele", diz. "O meu filho não é perfeito de maneira nenhuma, mas saiu do Brasil com 1 ano de idade, nos mudamos para a Bélgica e ele se adaptou lá. E depois com 2 anos e meio veio para a Alemanha, teve que esquecer o holandês, aprender o alemão e se adaptar à escola. Eu tenho muita admiração pela resiliência dele."

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Outros episódios de racismo

Joanna relata que esta não foi a primeira vez que sua família sofreu racismo e xenofobia na Europa. Quando moravam na Bélgica, seu marido Luciano foi acusado de roubar um carrinho para transporte de crianças em bicicletas. Segundo Joanna, a pessoa que fez a acusação "preferiu concluir que o homem negro tinha roubado" o carrinho, em vez de acreditar que ele transportava o próprio filho, ainda bebê. Na Alemanha, Luciano também sofreu outros episódios de racismo, inclusive na presença do filho. "Apesar do que está acontecendo na Alemanha, na Europa e no mundo, eu me recuso a acreditar que isso define o povo alemão", diz a ex-atleta. "E eu digo isso pelas pessoas que conheço, que estão no meu convívio. E eu não me importo se numa votação isso vai ser 5%, 10% ou 15%, mas são essas pessoas que lutaram lá atrás pela democracia desse país e estão lutando hoje." Joanna reconhece as dificuldades enfrentadas por imigrantes: "Emigrar não é fácil, tem que ter muita coragem para recomeçar a vida. Fico muito triste de perceber que é esse grupo que está sendo atacado."