Cozinha vira palco: projeto no interior de SP une música eletrônica e gastronomia em estúdio inovador
Neste 9 de março, quando se celebra o Dia Mundial do DJ, uma iniciativa do interior paulista chama a atenção ao transformar uma cozinha comum em um palco vibrante para artistas da música eletrônica. Em Presidente Prudente (SP), o projeto Cozinha 48 nasceu de uma simples reunião entre amigos e evoluiu para um estúdio profissional que hoje serve como vitrine essencial para DJs independentes de todo o país.
Da brincadeira ao negócio: a origem da "balada na cozinha"
A ideia surgiu de forma completamente despretensiosa. Heberton Carlos de Holanda Oliveira, de 32 anos, e seu sócio, Kayo Santos, de 31, organizavam festas a cada três meses para um grupo restrito de amigos, sempre em chácaras ou na casa de um deles, com a música eletrônica como trilha sonora fixa. Em um desses encontros, após um churrasco, os equipamentos de DJ permaneceram montados na bancada da cozinha. No fim de semana seguinte, sem disposição para desmontar e reorganizar tudo na sala, decidiram tocar ali mesmo, criando assim a primeira "balada na cozinha".
O que começou como uma simples brincadeira rapidamente se tornou um dos momentos mais marcantes do grupo. Com fogão de um lado, geladeira do outro e amigos circulando pelo ambiente, a experiência ganhou um clima intimista e autêntico, bem diferente do padrão das festas tradicionais. "Foi absurdo! A energia era diferente, íntima, autêntica, orgânica", relata Heberton com entusiasmo.
Evolução para um estúdio profissional
Os vídeos publicados nas redes sociais rapidamente chamaram atenção e despertaram uma ideia maior. No dia seguinte, Heberton percebeu que o conceito poderia ir além do círculo de amigos. Com experiência na área audiovisual, ele já possuía câmeras, iluminação e estrutura de filmagem, enquanto Kayo contribuía com equipamentos profissionais de DJ — incluindo CDJs, mixer e sistema de som. Da união dessas duas áreas nasceu oficialmente o Cozinha 48.
Inspirado em formatos internacionais de sets gravados em locações alternativas e no estilo da Boiler Room, o projeto passou a funcionar como um estúdio dedicado à gravação e transmissão de apresentações para plataformas como YouTube, Twitch, Instagram e TikTok. Diferente de uma balada convencional, o espaço não é aberto ao público e não comercializa ingressos. "É palco, é vitrine, é posicionamento", define Heberton com clareza. A proposta central é oferecer estrutura profissional para que DJs, especialmente iniciantes e independentes, possam gravar material de alta qualidade para portfólio e divulgação.
Desafios e adaptações técnicas
Transformar uma cozinha comum em um estúdio de gravação não foi uma tarefa simples. "É uma cozinha real. Não é cenário", afirma o sócio Kayo Santos. O ambiente exigiu adaptações técnicas significativas, principalmente em relação ao áudio. "Como há muitos talheres, copos, utensílios e superfícies duras, o grave vibrava muito e gerava ruído. Tivemos que investir em tratamento acústico", explica Heberton.
Além disso, houve mudanças na parte gastronômica. Para garantir segurança e evitar fumaça excessiva durante as transmissões, o espaço passou a utilizar fogão por indução, e preparos que geram cheiro intenso são realizados parcialmente em área externa. O cuidado com imagem e som é parte fundamental da proposta, pois o material precisa ter qualidade suficiente para que os artistas o utilizem como portfólio profissional.
Seleção e impacto na carreira dos artistas
Segundo os idealizadores, é feita uma seleção criteriosa para definir quais artistas vão tocar na cozinha. O trabalho coletivo de curadoria considera a vertente dentro da música eletrônica, a capacidade de leitura de pista e, principalmente, a postura profissional do DJ. "Hoje temos mais de 500 artistas esperando vaga para gravar. A Cozinha deixou de ser um projeto. Virou uma plataforma", afirma Heberton com orgulho.
A intenção é reunir artistas que encarem a música como carreira e busquem evolução técnica, disciplina e crescimento no mercado. Um dos cases de sucesso é o DJ e chef Hernandez Aquino, de 39 anos, que já conciliava as duas atividades em sua rotina. Ele descreve a experiência como uma troca intensa de energia. "Música alimenta a alma, comida alimenta o corpo. Quando você une as duas, você cria algo único e memorável", diz Hernandez.
Para o DJ Alfredo Blaya Monteiro, de 36 anos, a estrutura do projeto influenciou diretamente na performance e na qualidade do material final. Segundo ele, o conteúdo produzido no estúdio superou gravações anteriores e acabou ampliando oportunidades profissionais. Murilo Casadei Fernandes, de 22 anos, também relata aumento de seguidores e recebimento de convites para shows após participar da experiência.
Fortalecimento da cena local e planos futuros
Em sete meses de funcionamento, o Cozinha 48 já reúne cerca de 6 mil seguidores no Instagram e afirma alcançar público em todos os estados brasileiros. Fábio Ribeiro Nunes Júnior, de 23 anos, avalia que iniciativas como essa ajudam a fortalecer a cultura musical local. "Abre oportunidades para conhecer novos artistas, novas pessoas e principalmente para aprendizado em geral", afirma o DJ.
Além de produzir gravações de sets, o Cozinha 48 planeja ampliar suas atividades com a criação de uma escola para DJs, o lançamento de um podcast e a organização de eventos externos. A meta é fortalecer a cena eletrônica independente em Presidente Prudente e também posicionar o interior paulista como um celeiro de talentos. "Quando o público comparece, quando apoia de verdade, os eventos crescem. Quando os eventos crescem, a visibilidade aumenta. E, quando a visibilidade aumenta, os artistas locais ganham força. É um ciclo. A Cozinha 48 nasceu para ajudar a estruturar essa ponte", conclui Heberton com otimismo.



