O produtor e diretor musical Augusto César Graça Mello, conhecido como Guto Graça Mello, faleceu nesta terça-feira (5) no Rio de Janeiro, aos 78 anos. A notícia foi confirmada por familiares e rapidamente repercutiu nas redes sociais, onde artistas como Maria Bethânia e Nelson Motta prestaram homenagens.
Homenagens de amigos e artistas
Maria Bethânia publicou fotos de Graça Mello em uma rede social e escreveu: "O mundo da música deve reverências a ele". Já Nelson Motta, jornalista e compositor, postou imagens e destacou a carreira do amigo: "Querido amigo e parceiro Guto Graça Mello partiu em paz, deixando uma obra monumental como produtor e arranjador de vários grandes nomes da música brasileira".
Internação e causa da morte
Graça Mello estava internado no Hospital Barra D'Or, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, havia mais de um mês após sofrer uma queda. Segundo familiares, a causa da morte foi uma parada cardiorrespiratória. Ele deixa a viúva, atriz Sylvia Massari, duas filhas e dois enteados. Durante a internação, Sylvia fez postagens com esperança de recuperação e declarações de amor, como "Na alegria e na tristeza... te amo!"
Carreira e legado
Graça Mello foi um dos principais nomes da música na televisão brasileira, transformando trilhas sonoras de novelas em fenômenos de público e mercado. Ao longo de mais de cinco décadas, produziu mais de 500 discos, incluindo sucessos de Rita Lee, Roberto Carlos, Maria Bethânia e o primeiro disco de Xuxa. Nascido no Rio em 29 de abril de 1948, em uma família de artistas — filho dos atores Stella Graça Mello e Octávio Graça Mello —, ele cresceu em meio ao ambiente cultural. Iniciou o curso de arquitetura na UFRJ, mas abandonou para se dedicar à música. Estudou violão na escola ProArte e, nos anos 1960, começou a compor. Em parceria com Mariozinho Rocha, escreveu canções gravadas por Elis Regina e Nara Leão. Antes de se firmar na TV, viveu no exterior e integrou o grupo Vox Populi, apresentando-se no México.
Início na TV Globo
De volta ao Brasil, iniciou a trajetória na Globo em 1972 como produtor musical do programa "Viva Marília", com Marília Pêra. No ano seguinte, assinou sua primeira trilha de novela, "Cavalo de Aço", ao lado de Nelson Motta. Mais tarde, ele classificou esse trabalho como um começo difícil: "Eu odeio essa trilha com todas as forças até hoje, porque ela era 100% equivocada. Eu não tinha noção de como era fazer novela", disse ao g1 em 2020.
Trilhas de sucesso
A partir daí, construiu uma carreira decisiva para a identidade sonora das novelas. Foi responsável por trilhas de sucessos como "Gabriela", "Pecado Capital", "Saramandaia" e "Estúpido Cupido", sempre alinhando a música ao universo dramático das histórias. Para "Gabriela", encomendou a abertura a Dorival Caymmi e apostou em "Alegre Menina", musicada por Djavan a partir de um poema de Jorge Amado.
Trilha de última hora em 'Pecado Capital'
Um dos episódios mais marcantes foi a produção da trilha de "Pecado Capital", em 1975. Chamado às pressas dias antes da estreia, Guto montou praticamente todo o repertório em três dias e encomendou a música de abertura a Paulinho da Viola, que compôs "Dinheiro na mão é vendaval" em poucas horas.
Carreira na Som Livre
Paralelamente ao trabalho na TV, teve papel central na Som Livre, onde chegou a gerente-geral. Ajudou a estruturar o mercado de trilhas sonoras e a lançar artistas, usando a força das novelas para impulsionar carreiras. Entre os nomes que passaram pela gravadora estão Cazuza e Lulu Santos, no início de suas trajetórias. Ao longo da carreira, produziu mais de 500 discos, incluindo trabalhos de Rita Lee, Roberto Carlos e Maria Bethânia, e esteve à frente do primeiro álbum de Xuxa Meneghel, que vendeu milhões de cópias.
Autor do tema de abertura do 'Fantástico'
Também assinou trilhas de mais de 30 filmes e compôs o tema de abertura do "Fantástico". Perfeccionista, costumava dizer que seu maior desafio era manter a qualidade artística diante das demandas comerciais. Ao mesmo tempo, reconhecia o papel estratégico das novelas na difusão da música brasileira. "O meu barato era fazer o casting e usar a estrutura da Globo para explodir artistas", afirmou em entrevista. Guto Graça Mello deixou a Globo e a Som Livre em 1989, mas seguiu atuando na música, produzindo discos, trilhas e jingles. Nos últimos anos, dizia acompanhar novelas como espectador atento, especialmente às trilhas, área que ajudou a revolucionar. "Eu tenho dado muita sorte na vida", disse ao Memória Globo.



