Influenciadores digitais propagam conteúdo 'Red Pill' com discursos machistas nas redes sociais
Influenciadores propagam conteúdo 'Red Pill' com discursos machistas

Documentário da Netflix mergulha no universo da 'machosfera' e expõe influenciadores que propagam discursos misóginos

O premiado documentarista britânico Louis Theroux, de 55 anos, lançou recentemente na plataforma Netflix o filme Por Dentro da Machosfera, uma investigação profunda sobre o movimento conhecido como 'Red Pill' que vem ganhando força nas redes sociais brasileiras e internacionais. Com duração de uma hora e meia, a produção busca compreender as motivações por trás de criadores de conteúdo que disseminam ideias consideradas machistas e misóginas para milhões de seguidores, principalmente jovens e adolescentes.

Origem do termo 'Red Pill' e sua apropriação pela 'machosfera'

Inspirado no filme cult Matrix de 1999, o termo 'Red Pill' faz referência à cena em que o personagem principal precisa escolher entre a pílula azul, que o faria voltar a viver em uma simulação confortável, ou a vermelha, que o despertaria para a realidade crua do mundo dominado. Os adeptos deste movimento se apropriaram da simbologia como se a escolha pela pílula vermelha representasse um despertar para uma verdade supostamente oculta sobre as relações de gênero, posicionando-se contra o que chamam de 'dominação feminina' na sociedade contemporânea.

Principais influenciadores brasileiros do movimento 'Red Pill'

O documentário de Theroux apresenta, de maneira indireta, as contradições desses criadores de conteúdo, enquanto no Brasil, uma série de influenciadores digitais vem ganhando notoriedade com publicações polêmicas:

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  • Raiam Santos (35 anos): Com mais de dois milhões de seguidores e onze livros publicados, principalmente sobre empreendedorismo, o influenciador alcançou grande popularidade após começar a fazer comentários sobre o que mulheres deveriam ou não fazer. Em 2024, gerou polêmica ao afirmar em vídeo que 'todas as jovens com tatuagem são prostitutas e de pai ausente'.
  • Gabriel Breier (27 anos): Favorito entre adolescentes, acumula mais de 1,5 milhão de seguidores ao falar sobre como mudou seu estilo de vida para deixar de ser rejeitado por mulheres. Recentemente, participou do vídeo viral '1 machista e 30 feministas' e defende abertamente que 'a mulher deve servir ao marido' em suas publicações.
  • Rafael Aires: Com mais de dois milhões de seguidores, publica uma série de livros que ensinam homens a 'não serem otários' e analisa atitudes femininas em relacionamentos. Recentemente, afirmou que homens desistiram do Carnaval 'em troca de carne barata' e oferece em seu site oficial ensinamentos para identificar 'red flags de mulheres que podem destruir vidas'.
  • Thiago Schutz: Ficou conhecido como 'Calvo do Campari' em 2023 após relatar um episódio em que uma mulher perguntou se ele trocaria sua bebida por uma cerveja para acompanhá-la, interpretando como teste de submissão. Em dezembro de 2025, foi preso sob suspeita de violência doméstica contra a ex-namorada, enquanto continua ensinando como 'mulheres de valor se adaptam ao estilo de vida do homem'.
  • Breno Faria: Inspirado no livro Café com Deus Pai, criou a página Café Com Teu Pai para ensinar homens a identificarem pontos negativos em mulheres. Recentemente, mudou o foco para ensinar jovens a conquistarem 'homens ideais' e afirma que 'mulheres com 30 anos ou mais, bonitas e bem-sucedidas profissionalmente, mas solteiras, provavelmente são problemáticas'.

Impacto social e contradições do movimento

O documentário Por Dentro da Machosfera expõe não apenas o conteúdo produzido por esses influenciadores, mas também as contradições inerentes ao movimento. Enquanto pregam uma suposta libertação masculina de padrões sociais, muitos deles constroem impérios financeiros vendendo cursos, livros e mentorias que prometem ensinar homens a dominarem relacionamentos. A popularidade desses criadores de conteúdo revela uma preocupante tendência de normalização de discursos misóginos entre jovens, principalmente através de algoritmos das redes sociais que amplificam conteúdos polêmicos e engajadores.

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Theroux, conhecido por seus documentários investigativos que exploram subculturas e comportamentos sociais extremos, apresenta no filme uma análise equilibrada que permite ao espectador compreender tanto a atração exercida por esses conteúdos quanto seus perigos sociais. A produção chega em um momento crucial de discussão sobre os limites da liberdade de expressão nas plataformas digitais e a responsabilidade dos influenciadores com milhões de seguidores, muitos deles em formação de personalidade e valores.