Trecho de biografia de Nadal revela bastidores da final histórica em Wimbledon
Trecho de biografia de Nadal revela bastidores de final histórica

O título da biografia de Rafael Nadal não lhe faz completa justiça. O tenista espanhol realmente detém o recorde histórico de maior número de títulos conquistados na superfície de saibro, com 63 troféus, ultrapassando a marca anterior de 49 vitórias do argentino Guillermo Vilas. Mas Nadal fez muito mais. Ao todo, ele soma 22 títulos de Grand Slam em simples, distribuídos em 14 conquistas em Roland-Garros, quatro no Aberto dos Estados Unidos, dois em Wimbledon e dois no Aberto da Austrália. Como se não bastasse, Nadal é o único homem a ter alcançado o número 1 do ranking em três décadas diferentes e o único atleta a passar quase 18 anos consecutivos no top 10 do esporte.

O livro Rafael Nadal: O Rei do Saibro, do jornalista esportivo Christopher Clarey, traça a jornada do atleta, abordando seus rituais, sua ética de trabalho e trazendo detalhes de bastidores desde a sua primeira vitória em Roland-Garros, aos 19 anos, até os principais confrontos de sua carreira. Abaixo, confira um trecho do livro que relata a final de Wimbledon disputada contra Roger Federer, em 2008. Federer tentava quebrar o recorde masculino moderno de Björn Borg ao vencer Wimbledon pela sexta vez consecutiva, enquanto Nadal buscava ser o primeiro homem desde Borg, em 1980, a completar a difícil dobradinha Roland-Garros e Wimbledon na mesma temporada.

Eles chegaram a Wimbledon em rota de colisão, ambos a toda velocidade. Federer não perdeu um set sequer a caminho da final. Nadal perdeu apenas um. Federer disse que seria “a final dos sonhos”, e tinha razão. A magnífica rivalidade entre eles já seria motivo para fazer da partida um evento de tênis imperdível, mas a história também estava em jogo. Federer tentava quebrar o recorde masculino moderno de Borg, vencendo Wimbledon pela sexta vez consecutiva; Nadal tentava se tornar o primeiro homem desde Borg, em 1980, a completar na sequência a difícil dobradinha Roland-Garros-Wimbledon. Grandes partidas podem acontecer a qualquer momento, mas o que tornou esta transcendente não foi apenas a qualidade das trocas de golpes e a diferença mínima entre os adversários; foi que, depois de toda a expectativa, a partida de alguma forma conseguiu superá-la.

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Eu estava lá, finalizando minha matéria em cima do prazo. Seria a última partida de Wimbledon a ser disputada sem a estrutura de teto retrátil na Quadra Central, e era como se o torneio quisesse enfatizar a necessidade de mudança. A chuva adiou o início da final, e haveria mais dois atrasos causados pela chuva após o início da partida, postergando a final para depois das nove da noite, quando a luz do dia já estava tão fraca que era um verdadeiro desafio para Federer e Nadal enxergar a bola — para nós, nas cadeiras da imprensa, era um suplício tentar ler os rabiscos em nossos cadernos. Os tenistas nos proporcionaram ótimo material, em quantidade e qualidade.

Com apenas doze minutos de jogo, após uma série de trocas acirradas, Toni Nadal se virou para Carlos Costa e disse: “Que sofrimento nos espera!”. Com quatro horas e quarenta e oito minutos, essa seria a final de simples masculina mais longa de Wimbledon nos 131 anos de história do torneio e, com os atrasos, durou quase seis horas. Nadal, dedicado à missão, venceu os dois primeiros sets. Federer reagiu com bravura e salvou dois match points no tiebreak do quarto set, um deles com uma magnífica passada de backhand na paralela que caiu perto da linha de base e deixou Nadal se sentindo menos convicto quanto ao próprio destino. No quinto set, Federer estava a dois pontos da vitória; Nadal sacou com 4-5, 30 iguais, mas o espanhol, que teria o serviço quebrado apenas uma vez naquela final-maratona, manteve-se firme e depois quebrou o serviço de Federer no 7-7. Eram 21h10 quando ele sacou pelo título, e uma lanterna teria sido útil. “No último game, eu já não enxergava nada”, disse ele. “Foi inacreditável. Pensei: temos que parar. Bem, se eu perder o último game, temos que parar, isso é certo.”

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No entanto, depois de vacilar na final de Wimbledon de 2007 e no quarto set dessa final, Nadal se forçou a ir além de seus limites. Embora Federer tenha salvado um terceiro match point com uma ousada devolução de esquerda a que Nadal não conseguiu responder, o suíço não conseguiu salvar o match point seguinte: avançou para marretar com seu golpe característico, o forehand, mas dessa vez a bola bateu na rede. Não foi bem o encerramento ideal. Essa majestosa partida merecia terminar com algo primoroso. Entretanto, a obra-prima mútua de Federer e Nadal havia acabado, e Rafael caiu na grama, ou no que restava dela após treze dias de disputas. Ele havia aprimorado seu jogo para chegar àquele momento: jogando mais perto da linha de fundo e refinando seu saque, seu slice e o backhand de duas mãos. Agora, ele se juntava a Borg e, acima de tudo, a Manuel Santana, o único outro espanhol a vencer o título de simples de Wimbledon. Os dois estavam na primeira fila do Camarote Real; não demorou muito para que Santana, vencedor em Wimbledon em 1966, fosse às lágrimas, assim como Rafael.

Ao longo dos anos, eu havia conversado várias vezes com Santana sobre Nadal, e ele sempre acreditou no grande potencial de Rafael, bem como em suas chances de prosperar na grama em Wimbledon, mesmo quando essa era uma opinião minoritária. “Eu acredito no Rafa quase tanto quanto ele acredita em si”, Santana escreveu no El País no dia seguinte à final. “Porque ninguém acreditou tanto em Rafa quanto o próprio Rafa. A luz desistiu no domingo, mas Rafa, não. Quando ele entra em quadra, sabe que não há nada garantido além das trocas de lado a cada dois games. O restante depende dele, e o bom do Rafa é que, no fundo, em seu coração, ele não tem uma opinião muito elevada sobre si, então sabe que não vai conquistar nada de graça só por causa do sobrenome.” Agora esse sobrenome estava no quadro de honra de Wimbledon no All England Club. “R. Nadal” era mais do que um campeão do Aberto da França.