Cida Moreira homenageia Angela Ro Ro em temporada carioca
A cantora paulistana Cida Moreira, presença geralmente rara nos palcos do Rio de Janeiro, está vivendo um momento especial na cidade maravilhosa durante este primeiro semestre de 2026. Desde o final de janeiro, a artista tem cruzado frequentemente a ponte aérea entre São Paulo e Rio para apresentar aos cariocas seu tributo à compositora Angela Ro Ro, falecida em setembro de 2025.
Uma conexão musical profunda
Após duas minitemporadas no Manouche que totalizaram quatro apresentações, Cida Moreira levou o show "Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro" para o Teatro Rival Petrobras, com sessões agendadas para sexta-feira e sábado, 10 e 11 de abril. O espetáculo representa uma imersão no universo musical da compositora carioca, nascida em 5 de dezembro de 1949.
Sem as tensões da estreia em 31 de janeiro, Cida apresentou um belo show, driblando com maestria problemas técnicos no som do piano que surgiram logo após o número instrumental de abertura. A artista não se deixou abater pela questão técnica, mais perceptível ao seu ouvido sensível do que pela plateia, e conduziu um espetáculo fluente que ganhou ainda mais redondeza com a inclusão da canção "Só nos resta viver" (1980) no arremate final.
Repertório emocionante e escolhas cuidadosas
A ausência de "Só nos resta viver" era sentida desde a estreia do espetáculo, sendo esta composição um sopro de relativa leveza na obra geralmente densa de Angela Ro Ro, além de possuir uma das melodias mais bonitas do cancioneiro da compositora. Cida já havia incluído a música na apresentação que fez no Blue Note São Paulo no domingo anterior, 5 de abril.
Na estreia no Teatro Rival Petrobras, a cantora também optou por substituir "Mares de Espanha" (1979) por "Came e case" (1981), composição em que Ro Ro celebrou o prazer de amar. Embora "Came e case" seja uma música marcante do terceiro álbum de Angela Ro Ro, "Escândalo" (1981), muitos apreciadores preferem a intensidade emocional de "Mares de Espanha", que ganhou nova visibilidade no ano passado através da interpretação arrebatadora de Maria Bethânia.
Afinidades artísticas que transcendem gerações
Enquanto Cida cantava "Gota de sangue" (1979) e "Fogueira" (1983), ficou evidente mais uma vez o quanto Maria Bethânia compreende e traduz em seu canto o universo de Angela Ro Ro. Vale lembrar que coube à intérprete baiana a primazia de acender "Fogueira" no álbum "Ciclo" (1983).
Não é fácil cantar Angela Ro Ro porque a própria compositora foi intérprete excepcional de seu próprio cancioneiro. Porém, há cantoras que encaram e vencem esse desafio, como Bethânia e como Cida Moreira. E seria injusto omitir o nome de Marina Lima, a primeira cantora a gravar uma canção de Ro Ro, antes mesmo da compositora.
Quando Cida cantou "Não há cabeça" (1979), uma das grandes músicas de Ro Ro que raramente era apresentada pela autora em shows, como ressaltou a própria Cida, reverberou intensamente a gravação feita por Marina Lima para o primeiro álbum, "Simples como fogo" (1979), com o piano da própria Angela Ro Ro e a guitarra atmosférica de Sérgio Dias.
Uma questão de alma
Cida Moreira demonstra compreender o sentido e o sentimento das letras de Angela Ro Ro com perfeição. Quando a cantora interpretou "A mim e a mais ninguém" (Angela Ro Ro e Sérgio Bandeyra, 1979) e "Me acalmo danando" (1979), ficou evidente pela enésima vez que existe uma afinidade profunda entre intérprete e compositora. Trata-se de uma questão de alma que transcende a voz.
O show abriu com o toque sagaz do samba-canção "Demais" (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1959), música que representa a mais completa tradução da existência de Ro Ro. Cida Moreira se acompanha ao piano durante todo o espetáculo, demonstrando não apenas suas habilidades vocais, mas também seu domínio instrumental.
Se a vida é bela, apesar das dissonâncias do mundo, só nos resta viver e ouvir Cida Moreira cantar a música de Angela Ro Ro, em uma celebração que honra a memória da compositora e reafirma a força do cancioneiro brasileiro.



