Choro vive renascimento no Rio com rodas, aulas e eventos lotados
O choro, considerado o gênero musical urbano mais antigo do Brasil, está passando por um notável renascimento em diversos pontos do Rio de Janeiro. Com uma execução complexa e ligações históricas ao samba, maxixe e até à música clássica, o choro tem atraído multidões para rodas e espaços fechados no Centro e nas zonas Sul e Norte, reunindo um público de faixas etárias extremamente diversificadas.
Escola de Música Portátil registra alta demanda por aulas
Um dos principais indicadores do crescente interesse pelo choro é o sucesso da Escola de Música Portátil, braço educacional da Casa do Choro, instituição referência na conservação e estudo do gênero. Atualmente, a iniciativa conta com cerca de mil alunos por semestre e mantém uma fila de espera para o aprendizado de diversos instrumentos, especialmente os de sopro.
Nos sábados, dezenas de estudantes se reúnem para tocar clássicos como “Lamentos”, de Pixinguinha, em sessões conhecidas como “bandão”. Esses encontros atraem plateias formadas por outros alunos, familiares, curiosos e até turistas, demonstrando a vitalidade do choro. A faixa etária varia de crianças a idosos, todos unidos pela admiração por um ritmo que surgiu na década de 1870, com pioneiros como o flautista Joaquim Callado e a pianista Chiquinha Gonzaga.
Trem do Choro e eventos celebram a tradição suburbana
Inspirado no Trem do Samba, o Trem do Choro é um evento que parte da Estação Central do Brasil e segue até a Estação Olaria, chamada carinhosamente de “Estação do Choro Zé da Velha”. Organizado por coletivos como Choro no Mundo e Instituto Cultural Grupo 100% Suburbano, o evento homenageia a profunda relação do gênero com os bairros do Subúrbio da Leopoldina, onde muitos músicos, incluindo Pixinguinha, viveram e criaram.
Luiz Carlos Nunuka, fundador do coletivo 100% Suburbano, destaca que o subúrbio acolheu diversos chorões ao longo da história, oferecendo moradia acessível e tornando-se um berço cultural. Nomes como Canhoto, Altamiro Carrilho e Zé da Velha são exemplos dessa conexão. Após a chegada em Olaria, o evento inclui um cortejo até a Travessa Pixinguinha, com uma estátua do músico, e uma roda de choro na Praça Ramos Figueira.
Festival Internacional em Niterói amplia a celebração
Entre os dias 23 e 26 de abril, Niterói sedia o IV Festival Internacional de Choro de Niterói, com apresentações que fusionam o gênero com samba, jazz, frevo, funk carioca e outras vertentes da música negra contemporânea. A programação inclui homenagens a mestres como Elizeth Cardoso, Garoto, Paulinho da Viola e Jorginho do Pandeiro, além de oficinas de instrumentos em equipamentos públicos da cidade.
Os espetáculos ocorrem na Reserva Cultural e na Sala Nelson Pereira dos Santos, com ingressos gratuitos retirados na bilheteria. Entre os destaques estão apresentações de Rogério Souza, Amaro Freitas, Choro Batucada e uma homenagem a Zé da Velha com Silvério Ponte e Everson Moraes.
Interesse estrangeiro e noite carioca reforçam popularidade
O choro também tem cativado músicos estrangeiros, como evidenciado pela visita do britânico Jacob Collier, apelidado de “Mozart da Geração Z”, ao Choro Batucada no Glorioso Cultural. Collier elogiou a música brasileira como “a melhor do mundo”, refletindo uma tradição de admiração internacional que remonta ao século XIX, com exemplos como o francês Darius Milhaud.
Luciana Rabello, cofundadora da Casa do Choro, observa que o interesse pelo gênero aumentou significativamente após a pandemia, quando a escola adaptou-se com cursos online e manteve sua base de alunos. Ela destaca a adaptabilidade do choro, que preserva seus fundamentos enquanto se reinventa em diferentes épocas, atraindo desde músicos de carnaval de rua até aficionados da música clássica.
Com rodas improvisadas em feiras, como na Rua General Glicério em Laranjeiras, e eventos regulares como o Choro Batucada, o choro continua a encantar novas gerações, consolidando-se como um patrimônio cultural vibrante e em constante evolução no Rio de Janeiro.



