Chico Science: O cientista dos ritmos que revolucionou a música brasileira com o Manguebeat
Chico Science: o revolucionário do Manguebeat na música brasileira

Chico Science: O legado do cientista dos ritmos que transformou a cena musical brasileira

Antes que o mito da perna cabeluda retornasse ao centro da cultura pop com o filme O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro Oscars, essa figura já havia sido eternizada na música pernambucana dos anos 1990. O primeiro álbum da banda Chico Science & Nação Zumbi, Da Lama ao Caos, lançou o manifesto do movimento Manguebeat ao cantar que o galeguinho do Coque não tinha medo da perna cabeluda.

O nascimento de um ícone cultural

Francisco de Assis França Caldas Brandão, que receberia o apelido de Chico Science de Renato L., um dos idealizadores do Manguebeat, nasceu em Olinda no dia 13 de março de 1966. Sua estética marcante, com chapéu de palha, óculos escuros e colares, tornou-se referência cultural até os dias atuais. Nesta sexta-feira (13), o artista completaria 60 anos, deixando um legado que continua a influenciar gerações.

Luciana Mendonça, professora da Universidade Federal de Pernambuco e autora do livro Manguebeat: A Cena, o Recife e o Mundo, considera Chico Science um verdadeiro cientista dos ritmos. O que é mais interessante é o processo desse garoto que curtia break, que curtia música negra, que era inquieto, ouvia muitas coisas, circulava por muitos lugares, afirma a pesquisadora.

A formação musical e as experiências decisivas

Segundo Luciana Mendonça, o período anterior à formação da Nação Zumbi representou uma fase crucial na trajetória artística de Chico Science. O período anterior à formação da Nação Zumbi é um período já de experimentação, de ouvir muitas coisas, explica a professora. Essa circulação, esse contato com as musicalidades das periferias da Região Metropolitana do Recife, acho que é muito importante para essa formação do Chico.

A pesquisadora destaca que foi nesse momento que se consolidaram as referências e experiências que moldariam a identidade musical única do artista. E esse contato com a música negra, sobretudo com a música transnacional, com a Soul Music, com hip hop, enfim, todo esse processo é que vai transformar o Francisco de Assis França no Chico Science, completa Luciana.

O aglutinador da cena Manguebeat

Uma das principais características de Chico Science, segundo a professora, era sua capacidade extraordinária de reunir artistas e ideias diferentes. Ele foi a pessoa aglutinadora da cena musical do Manguebeat. Ele quem deu o nome para cena, afirma Luciana Mendonça. Ele saiu com essa tirada do Manguebeat, que depois de feito parece óbvia, porque o mangue é uma paisagem central do Recife.

O movimento se consolidou ao articular produções culturais já existentes na cidade com as experimentações musicais inovadoras de Chico Science. Ele incorpora uma produção que já existia no Recife, por exemplo, a produção do Alto Zé do Pinho, o Devotos, que é uma banda que surge nos anos 80, detalha a pesquisadora. Para a cena local, ele é central. Ele é o principal criador, o aglutinador.

Valorização da cultura popular pernambucana

Outro aspecto fundamental destacado por Luciana Mendonça é como o Manguebeat se relacionou com a cultura popular tradicional de Pernambuco. Uma coisa muito especial do Manguebeat é que passou-se a colocar os mestres da cultura popular no palco, e não a substituí-los, explica a professora. Então, as formas de fusão musical não se tornaram uma substituição daquilo que era a cultura popular.

Dessa forma, o movimento conseguiu valorizar a pluralidade de sonoridades presentes no Recife, dando maior visibilidade às expressões culturais locais enquanto incorporava influências globais.

O impacto nacional e internacional

O impacto de Chico Science e da Nação Zumbi transcendeu as fronteiras de Pernambuco, alcançando reconhecimento nacional e internacional. Ele conseguiu lançar com a Nação Zumbi dois álbuns, o Da Lama ao Caos e o Afrociberdelia. E o impacto foi muito grande, afirma Luciana Mendonça. Tanto que são dois álbuns que estão em várias listas de críticos como melhores álbuns da década, melhores álbuns da música popular.

A originalidade da sonoridade criada pela banda, que misturava ritmos pernambucanos com referências do rock, hip hop e música eletrônica, representou uma novidade absoluta no cenário musical da época. A sonoridade da Nação Zumbi era uma novidade absoluta que depois foi imensamente copiada, destaca a pesquisadora. Nacionalmente, eu acho que chacoalha o panorama da música popular brasileira dos anos 90.

O legado criativo que inspira gerações

O legado de Chico Science vai muito além de sua produção musical, influenciando a postura criativa de diversas bandas dentro e fora do Brasil. Luciana Mendonça destaca a filosofia do faça o que você é, inspirada no lema punk do faça você mesmo, mas adaptada por Chico Science com uma perspectiva única.

O Chico vai falar 'faça o que você é'. Ou seja, expresse aquilo tudo que você absorveu no seu processo de socialização, explica a professora. Esta ideia do 'faça o que você é' vai inspirar muitas bandas dentro e fora do Brasil.

Essa abordagem incentivou artistas a expressarem suas identidades culturais autênticas a partir das referências que carregavam, criando um modelo de criação artística que continua relevante décadas após o surgimento do Manguebeat.