Vila Isabel reafirma identidade negra com enredo sobre Heitor dos Prazeres para 2026
Vila Isabel reafirma identidade negra com enredo para 2026

Vila Isabel reafirma identidade negra com enredo sobre Heitor dos Prazeres para 2026

Apontada como uma das favoritas ao título do carnaval carioca de 2026, a Unidos de Vila Isabel levará para a Sapucaí o enredo “Macumbembê, samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, uma proposta de forte identidade afro centrada na trajetória do sambista, compositor e pintor Heitor dos Prazeres. A escolha é vista por estudiosos do carnaval como um movimento que reconecta a escola à própria história e à cultura negra carioca.

Resposta simbólica e histórica

A decisão ocorre um ano após a polêmica envolvendo o então carnavalesco da agremiação Paulo Barros, que criticou publicamente o que chamou de “excesso” de enredos afros nos desfiles de 2025. Para o pesquisador e jornalista Fábio Fabato, a escolha dialoga diretamente com a identidade histórica da agremiação.

“Creio que é uma resposta mais do que simbólica, é direta, com base, sobretudo, na história da escola, não apenas relativa à polêmica fala do Paulo Barros”, afirmou Fabato. “A Vila é uma bandeira de 80 anos que se entende com enredos ligados à cultura negra, aos saberes de sua comunidade, tem o Martinho da Vila mais do que como baluarte: um totem.”

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Mudanças estruturais na agremiação

Após a repercussão negativa das declarações de Paulo Barros no mundo do samba, a Vila Isabel passou a adotar decisões que reforçaram esse reposicionamento. Além do tema escolhido, a mudança se refletiu na equipe artística.

Para 2026, a Vila contratou a dupla de carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, identificada com narrativas ligadas às culturas negras e vencedora em 2022 com um desfile histórico sobre Exu na Grande Rio. A saída de Paulo Barros se consolidou após um 8º lugar em 2025.

Polêmica que gerou transformação

Toda a controvérsia teve início em fevereiro de 2025, quando Paulo Barros declarou não gostar de enredos com temática africana. “Não venham querer me entubar uma responsabilidade e uma obrigação de ter que falar de temas africanos. Não gosto. É uma opinião minha”, afirmou o carnavalesco à época.

Os comentários geraram forte reação no universo do samba, sobretudo porque a Vila Isabel é historicamente associada a enredos ligados à cultura negra e conquistou seu título mais emblemático, em 1988, com Kizomba, sobre o centenário da Abolição da Escravidão.

Reações da comunidade do samba

Uma das reações mais duras partiu de Tunico da Vila, músico e filho de Martinho da Vila. Para ele, a declaração foi “infeliz” e atingiu diretamente a identidade da escola. “Foi uma fala infeliz. Uma fala até um pouco racista. Não é que ele seja racista, não é isso. Mas a fala. O discurso. Um discurso conservador”, disse Tunico.

Um ano depois, ao avaliar as mudanças internas na Vila, Tunico reconheceu: “Eu acho que foi uma mudança necessária que teve dentro da escola. O Paulo Barros é um grande carnavalesco que teve uma opinião infeliz.”

Enredo que resgata territórios simbólicos

O enredo da Vila Isabel em 2026 tem como eixo a vida e a obra de Heitor dos Prazeres, artista fundamental na formação do samba e da cultura popular carioca. A narrativa propõe uma “África imaginada”, recriada no Rio de Janeiro a partir de territórios como:

  • A Pequena África
  • A Pedra do Sal
  • A Praça Onze
  • A casa de Tia Ciata

O lançamento do enredo ocorreu na Pedra do Sal, com uma roda de samba aberta ao público, reforçando a conexão simbólica entre o tema escolhido e os espaços históricos da cultura negra carioca.

Samba que afirma identidade

O samba-enredo traz versos como “De todos os tons, a Vila Negra é”, reafirmando de forma explícita a identidade que a escola pretende levar para a Avenida. “Quando tem um samba que fala a ‘Vila Negra é’, você afirma essa identidade negra, você afirma toda a nossa ancestralidade. Isso é lindo demais”, disse Tunico.

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Favoritismo ao título

Com um enredo de forte apelo simbólico, um samba bem recebido no pré-carnaval e uma dupla de carnavalescos consagrada, a Vila Isabel aparece entre as favoritas ao título em 2026, segundo os especialistas.

“A Vila possui o samba mais badalado do pré-carnaval, tem a citada dupla de carnavalescos protagonistas e traz um enredo que respira Rio de Janeiro. Obviamente, pensando nesses tantos elementos de musculatura no tabuleiro de asfalto, é muito favorita”, avaliou Fábio Fabato.

Tunico vai além e aposta no campeonato: “Acho que a Vila Isabel escolheu um enredo fantástico e vem muito forte pro carnaval. Eu arrisco a dizer que tá nas mãos da Vila Isabel o campeonato desse ano.”

Contexto do carnaval carioca

O debate levantado por Barros ocorreu em um contexto em que 9 das 12 escolas do Grupo Especial abordaram ou fizeram referência à África e às religiões de matriz africana em 2025. Para Fabato, a decisão da Vila Isabel também se relaciona com a leitura do momento histórico do carnaval.

“O enredo sobre terror do ano passado foi uma proposta equivocada porque ‘leu’ mal o seu tempo e fugiu da identidade historicamente consagrada da agremiação. Foi imperativa a correção”, analisou o pesquisador.

Tunico da Vila reforça que os temas afros são estruturais para todas as escolas de samba do Rio de Janeiro: “Eu acho que temas afros e indígenas, eles são essenciais para o desfile das escolas de samba. O tema afro é uma identidade brasileira. É a nossa ancestralidade.”