Iniciativa ousada transformou desejo de pai em marco cultural em Dracena
O simples desejo de um pai em contribuir com melhorias na escola onde suas duas filhas estudavam se transformou em um evento histórico para a cidade de Dracena, no interior de São Paulo. Há exatos trinta anos, Eduardo Luiz de Sousa Arruda concretizou uma ideia que parecia impossível: trazer a banda Mamonas Assassinas, fenômeno musical da época, para um show beneficente que mudaria para sempre a memória da comunidade.
Do problema na quadra ao sonho grandioso
Aos 72 anos, Eduardo relembra com detalhes como tudo começou. Ele e sua esposa eram voluntários na E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez, onde as filhas estudavam, e enfrentavam um desafio concreto: a quadra de esportes da escola não possuía cobertura, o que limitava drasticamente seu uso. "Nós promovíamos eventos de pequeno porte para arrecadar fundos, mas não rendia dinheiro suficiente para viabilizar a construção da cobertura", explicou Eduardo em entrevista.
Foi então que surgiu a ideia revolucionária: organizar um show de grande porte que pudesse gerar os recursos necessários. Entre as opções consideradas, os Mamonas Assassinas se destacaram imediatamente. O grupo fazia sucesso estrondoso na época, conquistando especialmente os alunos da escola. "Fui para casa pensando como ia amadurecer essa ideia de trazer os Mamonas para Dracena", contou o idealizador.
Ligação histórica e data que entrou para a memória coletiva
O destino interveio de maneira surpreendente. Enquanto assistia ao antigo Domingão do Faustão, Eduardo viu aparecerem na televisão os contatos dos empresários da banda. Sem hesitar, pegou o telefone e fez a ligação que mudaria tudo. A negociação, no entanto, apresentou obstáculos: inicialmente, não havia datas disponíveis para as opções sugeridas ao longo de 1996.
Mas persistência rendeu frutos. Restavam apenas dois dias livres na agenda dos Mamonas: 3 e 10 de janeiro, ambas quartas-feiras. "Em Dracena, cidade pequena, um evento desse, a possibilidade de não dar certo era grande", reconheceu Eduardo. Após reunião com a diretoria da escola, optaram pelo dia 10, considerando que no dia 3 muitas pessoas ainda não teriam recebido seus pagamentos.
Assim, em 10 de janeiro de 1996, aconteceu o show que atraiu aproximadamente 14 mil pessoas de diversas cidades do oeste paulista. "A cidade parou, ninguém acreditava", destacou Eduardo sobre o impacto do evento. A data ganhou significado ainda mais profundo dois meses depois, quando em 2 de março a banda inteira faleceu tragicamente em acidente aéreo após show em Brasília.
Legado que perdura por três décadas
O sucesso foi tão expressivo que cidades vizinhas chegaram a fazer ofertas para transferir o show para seus municípios, mas todas as propostas foram recusadas. O plano de realizar o evento em Dracena se concretizou plenamente, gerando recursos suficientes para a tão sonhada cobertura da quadra esportiva.
Entre os espectadores daquele dia histórico estava Danielle Cristine Santim, então com 14 anos e aluna da mesma escola. Fã declarada dos Mamonas Assassinas, ela acompanhou toda a mobilização desde o início. Anos mais tarde, em uma reviravolta emocionante, Danielle assumiu em 2017 o cargo de diretora da E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez.
"Por ser uma escola central, até hoje, alunos, professores e funcionários que já passaram por aqui vêm fazer visita e pedem permissão para recordar dos espaços escolares", afirmou a diretora. Ela destacou que a quadra continua sendo um local de boas recordações, especialmente do show histórico. Na entrada do espaço, uma placa em homenagem à banda e fotos no acervo histórico mantêm viva a memória do evento.
Trinta anos depois, a iniciativa de Eduardo Arruda permanece como testemunho do poder transformador da união comunitária e da ousadia em perseguir sonhos aparentemente impossíveis. O show dos Mamonas Assassinas em Dracena não apenas arrecadou fundos para melhorias escolares, mas criou um marco cultural que continua ecoando nas lembranças de toda uma geração.



