Pesca com botos no RS é reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo Iphan
Pesca com botos no RS vira patrimônio cultural imaterial

Pesca colaborativa entre humanos e botos no RS vira patrimônio cultural imaterial

Uma prática centenária que une pescadores e golfinhos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul acaba de receber reconhecimento oficial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A pesca com botos, uma forma rara de interação interespécies que ocorre principalmente na barra do Rio Tramandaí, foi inscrita no Livro dos Saberes como patrimônio cultural imaterial do Brasil durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

Proteção para uma tradição única

José Roberto Prestes Madruga, dirigente do Sindicato de Pescadores de Tramandaí, celebra a decisão que protege não apenas a prática em si, mas todo o território onde ela ocorre. "É muito importante para nós porque impede que qualquer empreendimento na Barra do Tramandaí, entre o rio Tramandaí e o mar, que possa acabar com a pesca cooperada possa ser erguido ali", explica Madruga. "Protege a pesca cooperada, as comunidades da pesca e reconhece o território como de pesca."

O dirigente destaca ainda que "a pesca cooperada deixou de acontecer em vários lugares do mundo e, aqui, ela vai continuar acontecendo. É uma herança que deixaremos aos nossos filhos." A prática ocorre entre as praias de Tramandaí e Imbé, com registros também em Torres, e envolve uma relação simbiótica entre pescadores humanos e botos-da-Lahille (Tursiops gephyreus).

Como funciona a pesca colaborativa

O ritual da pesca segue um padrão estabelecido por gerações:

  1. Os pescadores se posicionam na barra que liga as praias de Imbé e Tramandaí
  2. Os botos começam a aparecer com suas barbatanas e dorsos cinzas
  3. Os animais se lançam para o alto, indicando com precisão onde o cardume se encontra
  4. Os pescadores lançam redes e sarrafos exatamente no local indicado
  5. Os botos capturam mais facilmente os peixes que escapam das redes

Nos dias de maior concentração de tainhas, até 15 botos participam da pescaria. A relação é tão próxima e cotidiana que os animais recebem nomes dos pescadores, criando vínculos que ultrapassam a mera cooperação prática.

Geraldona e sua família: os botos nomeados

A decana dessa comunidade aquática é Geraldona, uma fêmea de boto-de-Lahille com mais de 40 anos que já constituiu família completa. Seus filhos são conhecidos como Rubinha, Chiquinho e Furacão, e sua neta recebeu o nome de Esperança. Essa nomeação pessoal dos animais revela a profundidade do vínculo estabelecido ao longo de décadas.

Maurino Ramos Francisco, pescador há 47 anos em Imbé, descreve uma relação que se assemelha à amizade: "Para nós, é muito show conviver com o boto a dois, três metros. O bicho é tão manso que fica ali do lado. Eu vejo eles todo dia, tanto que já viraram parte da família."

Tradição centenária e conservação

Embora não se saiba ao certo quando começou a pesca artesanal com botos em corpos d'água gaúchos, estima-se que seja uma tradição com mais de 100 anos. "Os pais dos pescadores, que já eram pescadores, já pescavam na barra do rio Tramandaí com os botos", afirma José Roberto Madruga.

O reconhecimento como patrimônio cultural chega em momento crucial para a conservação da espécie. Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o risco de extinção dos botos-de-Lahille de "vulnerável" para "em perigo de extinção". Estima-se que a população mundial total desses animais seja de apenas cerca de 330 indivíduos, com a maioria habitando o litoral Sul do Brasil.

Maurino Ramos Francisco vê no reconhecimento uma proteção adicional: "O boto agora é patrimônio e para alguém espantar um animal desse já fica mais difícil. Porque uns tentam salvar, já outros levam pra outro lado."

A inscrição no Livro dos Saberes do Iphan reconhece não apenas uma técnica de pesca, mas um conhecimento tradicional profundo que revela a estreita relação que os pescadores do litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul mantêm com seu entorno natural, preservando uma prática colaborativa rara entre humanos e animais selvagens.