Pesca colaborativa com botos em Laguna (SC) é reconhecida como patrimônio cultural imaterial
Pesca com botos em SC vira patrimônio cultural imaterial

Pesca colaborativa com botos em Laguna (SC) é reconhecida como patrimônio cultural imaterial

A pesca colaborativa com botos, uma prática tradicional secular em que pescadores artesanais e botos cooperam mutuamente para capturar tainhas, foi oficialmente reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) nesta quarta-feira (11).

Reconhecimento nacional amplia visibilidade da cidade

Segundo a prefeitura de Laguna, cidade no Sul de Santa Catarina intitulada de Capital Nacional dos Botos Pescadores, o reconhecimento nacional amplia significativamente a visibilidade da cidade "como referência mundial nessa rara interação entre seres humanos e vida marinha".

A decisão histórica foi tomada durante o segundo dia da 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância deliberativa máxima do Iphan. A prática, agora inscrita no Livro dos Saberes, já era patrimônio imaterial de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) desde 2018.

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Um saber-fazer tradicional enraizado

"Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam", afirma o parecer do conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Como funciona a pesca com botos?

Na prática, os botos ajudam os pescadores a localizar e cercar os cardumes da seguinte forma:

  1. Durante a época da pesca, geralmente entre maio a julho, os pescadores se reúnem no estuário e aguardam o sinal dos botos.
  2. Os animais direcionam o cardume até encurralá-lo em frente aos humanos.
  3. Quando isso acontece, o boto salta, e alguns até emitem sons, avisando que esse é o momento certo de jogar a isca.

Apesar de parecer natural, o processo demanda técnica e conhecimento prévios, pois os botos fazem inúmeros movimentos e cabe ao pescador a tarefa de decidir quando o cetáceo está auxiliando a pesca e quando não está.

A pesca cooperativa não ocorre com animais anônimos e genéricos: eles são identificados pelos pescadores com bases em suas características e habilidades, e geralmente têm nomes próprios, associados a elas.

Onde ocorre a pesca com botos?

A pesca com botos no Sul do Brasil ocorre em quatro sistemas estuarinos (ecossistemas de transição entre águas doces e salgadas) localizados entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul:

  • A foz do Rio Tramandaí (RS)
  • O Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, junto a Laguna
  • Estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC) ocasionalmente

Espécie em perigo de extinção

Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o risco de extinção dos botos-de-Lahille de vulnerável para em perigo de extinção. Estima-se que a população mundial total desses animais é de cerca de 330 indivíduos, a maioria deles no litoral sul do país.

Este reconhecimento como patrimônio cultural imaterial não apenas valoriza uma tradição única, mas também destaca a importância da conservação desses animais e de seus habitats para a continuidade desta prática cultural excepcional.

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