Bloco Pacotão mantém tradição de crítica política e humor no carnaval de Brasília
O tradicional bloco brasiliense Pacotão se prepara para mais uma edição marcada por crítica política, irreverência e marchinhas afiadas durante o carnaval. Segundo Charles Preto, presidente do grupo, a expectativa é manter a essência que consagrou o bloco na década de 1970: unir humor e política sem pedir licença.
"Desordem organizada" e gargalhada subversiva
"O público pode esperar 'desordem organizada', gargalhada subversiva e crítica em estado líquido. É carnaval, não coletiva de imprensa", afirmou Charles Preto. Ao ser questionado se o desfile será mais político ou mais bem-humorado, o representante do bloco foi enfático: "Aqui o humor é político e a política vira piada. Quem tenta separar as duas coisas normalmente está tentando esconder alguma coisa".
Em 2026, o bloco desfila a partir das 12h da terça-feira (17), com concentração na 302/303 Norte. Entre os principais desafios para a realização do desfile estão as exigências burocráticas, por conta das licenças e organizações necessárias para que o evento seja seguro e divertido.
Cenário político como fonte de inspiração
Sobre os temas que inspiram o bloco, Charles afirmou que o cenário político nacional segue sendo uma fonte constante. "O Brasil não para de produzir conteúdo. A gente só organiza em forma de marchinha", destacou o presidente do Pacotão.
O desfile tradicionalmente ocupa o centro de Brasília, escolha simbólica para o grupo pois "o centro é onde o poder posa de sério". Charles Preto explica: "O Pacotão vai lá para lembrar que a cidade não é só dos gabinetes. A rua também fala, também decide e, no nosso caso, também debocha".
O representante do bloco completa: "A gente observa, cobra, ironiza e desfila. Quando ajuda, a gente reconhece. Quando atrapalha, a gente transforma em marchinha. Quando promete demais vira fantasia coletiva".
Origens na ditadura militar
Criado em 1978, por um grupo de jornalistas e em plena ditadura militar, o Pacotão nasceu com a proposta de criticar o poder por meio da sátira. A origem do nome "pacotão" faz referência ao conjunto de medidas adotados por Ernesto Geisel em 1977, conhecido como "Pacote de Abril".
No dia 13 de abril daquele ano, o militar aprovou leis que, entre outras coisas:
- Criavam os "senadores biônicos" (indicados pelo presidente)
- Mantinham eleições indiretas
- Fechavam temporariamente o Congresso Nacional
- Estendiam o mandato presidencial para 6 anos
O tal pacote não foi para frente e, entre os jornalistas de Brasília, virou motivo de chacota. Da brincadeira, surgiu a ideia de criar um bloco de carnaval para satirizar as medidas do regime.
Teimosia e renovação após quase cinco décadas
Para o presidente, o que mantém o bloco vivo após quase cinco décadas é a combinação de teimosia e renovação. "Se um dia parar de criticar, fecha a bateria e vira bloco de condomínio. Enquanto existir autoridade achando que não pode virar fantasia, o Pacotão segue desfilando", afirmou Charles Preto.
O personagem fictício Charles Preto
O personagem fictício criado para representar o Pacotão faz referência ao diretor do Departamento de Turismo (Detur) da época, Carlos Black. Na primeira edição do bloco, em 1978, Carlos Black teria dito aos organizadores que não permitiria a passagem do Pacotão pela W3 Sul – o que os foliões fizeram à revelia e, ainda, na contramão.
Charles Preto era considerado "presidente vitalício e ditador perpétuo" do Pacotão e representava a autonomia do bloco, que nunca aceitou patrocínios de governo e até mesmo condecorações. Apesar de "dar entrevistas", ele não existe como pessoa física, sendo uma criação simbólica do grupo.



