Escola de samba denuncia perseguição por enredo sobre Lula e exige julgamento técnico
A escola de samba Acadêmicos de Niterói divulgou uma nota pública nesta segunda-feira, 16 de fevereiro, na qual relata ter enfrentado uma série de perseguições durante todo o processo de preparação para o Carnaval. A agremiação, que abriu os desfiles do Grupo Especial na noite de domingo, 15, afirma que as críticas e ações judiciais foram motivadas pela escolha do enredo, que homenageia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida", destaca a nota oficial. "Sofremos ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio carnaval carioca".
Tentativas de interferência na autonomia artística
Segundo a escola, houve diversas tentativas de minar sua liberdade criativa. "Houve tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar", acrescenta o texto. A Acadêmicos de Niterói enfatiza que, apesar das pressões, não cedeu e manteve sua proposta original.
A agremiação também fez referência ao que chama de "histórico conhecido no carnaval", criticando a narrativa de que "quem sobe, desce" – uma alusão à situação frequentemente enfrentada por escolas recém-promovidas ao Grupo Especial. Por isso, a escola exige um julgamento justo, técnico e transparente dos jurados, baseado exclusivamente no que foi apresentado na avenida.
Polêmicas e ações judiciais multiplicam-se
O enredo da Acadêmicos de Niterói foi alvo de intensa controvérsia, gerando pelo menos dez ações judiciais e representações junto ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas da União. As iniciativas, majoritariamente da oposição, argumentavam que trechos do samba e da apresentação configurariam propaganda eleitoral antecipada em favor do presidente Lula.
A legislação eleitoral brasileira permite campanha apenas a partir de 16 de agosto, o que motivou pedidos para barrar o desfile ou suspender repasses de recursos públicos. O caso chegou ao plenário do Tribunal Superior Eleitoral, que, por unanimidade, negou uma liminar para proibir a apresentação, sob o argumento de que a intervenção poderia caracterizar censura prévia.
Os ministros do TSE alertaram, contudo, que eventuais condutas na avenida poderiam ser analisadas posteriormente e resultar em punições. Após a decisão, o Partido dos Trabalhadores orientou seus integrantes a evitar atos que pudessem ser interpretados como propaganda antecipada.
Repercussão política e defesa da escola
O governo federal negou qualquer irregularidade, afirmando que não participou da escolha do enredo e que o apoio financeiro às escolas de samba é uma prática recorrente, não vinculada a questões políticas. Após o desfile, o presidente Lula utilizou suas redes sociais para elogiar a apresentação, o que gerou novas críticas da oposição e anúncios de medidas judiciais adicionais.
Na nota, a Acadêmicos de Niterói agradece à sua comunidade e destaca: "Mesmo pressionada, a Acadêmicos de Niterói não se curvou. Nos posicionamos, resistimos e levamos para a Avenida um desfile verdadeiro, potente e coerente com a nossa identidade". A escola finaliza com uma mensagem emblemática: "Em Niterói, o amor venceu o medo".
O episódio ilustra a complexa intersecção entre cultura, política e justiça no Carnaval brasileiro, levantando debates sobre liberdade artística, regulamentação eleitoral e a autonomia das escolas de samba frente a pressões externas.



