Leque se transforma em símbolo de resistência LGBT no Carnaval de São Paulo
Em um domingo escaldante, com temperaturas atingindo os 33ºC na capital paulista, um objeto comum ganhou novos significados e sonoridades. O tradicional leque, antes utilizado apenas para amenizar o calor, foi reinventado como um poderoso instrumento musical durante as celebrações carnavalescas dos blocos LGBTQIA+ da cidade.
Do refresco ao ritmo: a transformação do leque
O g1 registrou diversas cenas em que o leque era utilizado de maneira inovadora - não mais apenas abanando, mas sendo batido como um pandeiro ou tamborim, seguindo o compasso das músicas mais populares. Essa transformação foi especialmente visível durante a apresentação do bloco lésbico 'Siga bem Caminhoneira', que agitou o Largo do Arouche e arredores da Praça da República, no Centro de São Paulo, durante toda a tarde deste domingo (15).
O designer de interiores Afonso de Oliveira, de 24 anos, explicou que a popularização do leque como instrumento começou há dois anos, durante o icônico show da cantora Madonna na Praia de Copacabana. "O show se tornou um símbolo mundial porque o barulho envolve todo mundo no ritmo da dança", afirmou Oliveira. "Fazendo muito barulho e mostrando a presença da comunidade LGBT no mundo todo, a partir da Madonna em Copacabana".
De nicho a símbolo coletivo
Segundo Oliveira, o uso do leque já era comum entre drags e pessoas trans, como a humorista Nany People, mas parecia restrito a um nicho específico. "Mas agora todo gay tem um leque pra chamar de seu", comemorou o designer, destacando como o objeto se integrou definitivamente aos grandes eventos gays e lésbicos por todo o Brasil.
Os amigos Rafael Lardelau e Bruno Araújo reforçaram essa percepção, explicando que o leque se tornou um instrumento essencial para o Carnaval LGBT por múltiplas razões. "Começa pelo calor porque o carnaval é sempre no verão e está maravilhoso, e também faz parte da sinfonia", afirmou o radialista Bruno Araújo. "Hoje a bateria do bloco é o leque, a bateção. E combina super com as músicas que a gente gosta de ouvir".
Resistência e afirmação através do som
Para o enfermeiro Rafael Lardelau, o significado vai além do aspecto musical. "Acho que é uma questão de resistência, porque a gente tem que se orgulhar cada vez mais da comunidade LGBTQIA+", declarou. "É uma questão de resistência e da gente se orgulhar de fato de quem somos".
O casal Michelle de Oliveira e Regina Santos, juntos há dez anos, compartilhou sentimentos similares. "É um instrumento de afirmação pra dizer: 'nós estamos aqui'", afirmou a terapeuta Michelle. Regina Santos, gestora hospitalar, completou: "Acabou se tornando um símbolo de união. Todo mundo no mesmo ritmo, na mesma luta. E dizer que a gente está aqui contra o preconceito e várias questões".
Uma tarde de celebração e resistência
Com um repertório musical variado e energético, o bloco 'Siga bem Caminhoneira' arrastou uma multidão entusiasmada pelas ruas do Arouche e da Praça da República. Folhões de todas as idades se reuniram para celebrar, dançar e, claro, fazer soar seus leques no ritmo contagiante que ecoou pelo Centro da capital paulista durante toda a tarde.
O que começou como uma solução prática para enfrentar o calor intenso do verão paulistano transformou-se em um poderoso símbolo sonoro de resistência, orgulho e afirmação da comunidade LGBTQIA+. Através do simples ato de bater leques no ritmo da música, centenas de pessoas encontraram uma forma vibrante e coletiva de declarar sua presença, sua união e sua determinação em continuar celebrando sua identidade, mesmo diante dos desafios e preconceitos que ainda persistem na sociedade.



