Jongo Iracema: Os tambores que ecoam a resistência cultural em Goiás
Em Anápolis, o pulsar dos tambores do Jongo Iracema transcende o som, tornando-se um ritmo vivo de história e resistência. Este grupo pioneiro no estado de Goiás dedicou-se a preservar e difundir essa expressão cultural afro-brasileira, alcançando em 2025 um marco significativo em sua trajetória através do Projeto Continuança.
Validação afetiva e fortalecimento de redes
O ano de 2025 foi especialmente marcante para o coletivo. A tão sonhada vivência com o Jongo da Serrinha do Rio de Janeiro, considerado o berço dessa tradição, representou muito mais do que uma simples viagem. "Foi uma validação afetiva do nosso caminho", resume Danilo Costa, produtor cultural e membro do Jongo Iracema. O acolhimento na comunidade carioca fortaleceu profundamente o sentimento de pertencimento a uma grande rede jongueira nacional.
Reconhecimento e responsabilidade ampliada
Outro momento destacado foi a participação no 25º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, onde o grupo ministrou uma oficina de jongo aberta à comunidade. Ao lado da Mestra Jociara Souza, do Jongo Filhos da Semente de Indaiatuba-SP, tanto os integrantes quanto o público vivenciaram emoções singulares.
"Foi uma surpresa muito especial ela me reconhecer como Mestre de Jongo", compartilha Carlos Antônio dos Reis, o Mestre Tuísca, fundador e liderança do Jongo Iracema. "Agora carrego uma responsabilidade ainda maior, mas com a mesma humildade de sempre", reflete Tuísca, que também é Mestre de Capoeira Angola.
O Projeto Continuança: Estruturando a permanência
Esses passos significativos foram sustentados pelo Projeto Continuança, produzido pela TAOM Soluções Criativas e viabilizado pela Política Nacional Aldir Blanc – PNAB, através do Edital nº 16/2024 da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás. Como o próprio nome indica, a iniciativa busca garantir a permanência das ações do grupo.
"É sobre manter viva a chama do jongo, estruturar nossa base e seguir transmitindo esse legado", explica a produtora cultural e pesquisadora Andreza Rigo. O projeto permitiu:
- Aperfeiçoamento profissional dos integrantes
- Renovação de figurinos
- Realização de apresentações públicas
- Oficinas gratuitas para a comunidade anapolina
Essas oficinas têm formado novas gerações interessadas nos fundamentos do jongo: a dança circular, os pontos (cantos) e a percussão característica dos tambores.
O que é o jongo e sua importância histórica
O jongo é uma expressão cultural afro-brasileira que se formou durante o período colonial a partir da síntese de tradições de diferentes povos africanos escravizados. Envolvendo dança circular, canto e percussão, é considerado uma das matrizes do samba brasileiro.
A presença histórica do jongo em Goiás é foco de diversos estudos acadêmicos. Pesquisadores como Edison Carneiro (1959), com base em Melo Franco (1876), registraram uma dança chamada Caxambu no Vale do Paranã, região de Formosa. Adailton da Silva (2006) e Natália J. Lima (2024) também indicam vestígios da prática em Porangatu e na própria Anápolis por volta de 1990.
Em 2005, o jongo foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan, registrado no Livro de Registro das Formas de Expressão, atestando sua importância fundamental para a cultura nacional.
Perspectivas para o futuro
Com os alicerces fortalecidos em 2025, o Jongo Iracema segue em 2026 com a expectativa de ampliar sua rede de atuação e celebrar, levando os tambores a novos territórios e continuando a tecer a rica tapeçaria cultural afro-goiana. O grupo mantém atividades regulares e formações, fortalecendo cada vez mais essa tradição que resiste e se renova através das gerações.



