Carnaval de Olinda: entre tradição e poluição visual das casas de apostas
O Homem da Meia-Noite surge na janela, pronto para abrir oficialmente o carnaval em Olinda, Pernambuco. Vestindo cartola, dente de ouro e um fraque verde e branco, o boneco gigante é um símbolo histórico da festa. No entanto, para muitos foliões no centro histórico, a vista mais comum não é do tradicional personagem, mas sim da logomarca de uma casa de apostas. Essa realidade se intensificou desde o retorno do carnaval em 2023, após o hiato causado pela pandemia de covid-19, coincidindo com o crescimento explosivo das bets no Brasil e seus investimentos bilionários em publicidade.
Investimento massivo e impacto ambiental
Em 2023, o setor de apostas esportivas gastou impressionantes R$ 3,5 bilhões apenas no mercado brasileiro, conforme relatório do Itaú Unibanco publicado em 2024. Em Olinda, a presença se tornou ainda mais marcante no ano passado, quando a Esportes da Sorte foi escolhida como patrocinadora oficial do carnaval pela prefeitura. As ações da empresa incluíram a distribuição massiva de viseiras, chapéus e abanadores para os carnavalescos, além de banners, balões e parte da decoração oficial ostentarem a logomarca da marca. A maior parte desse material é fabricada em poliéster, derivado do plástico, gerando preocupações ambientais.
Moradores acostumados com estandartes de troças, bonecos tradicionais e outros símbolos de um dos carnavais mais antigos do mundo expressam incômodo com o volume de lixo acumulado nas ruas ao final de cada dia. "Sempre houve ações de publicidade, mas o volume disso vem crescendo a cada ano", relata a produtora cultural Beatriz Arcoverde, de 38 anos. Ela observa que, embora outras casas de apostas tenham realizado ações semelhantes anteriormente, os recursos eram menores. A percepção geral é que a quantidade de material publicitário aumenta anualmente, dificultando a limpeza da cidade histórica, reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco desde 1982.
Críticas à gestão municipal e surgimento de protestos artísticos
Nascida em Olinda e brincante de carnaval desde a infância, Arcoverde destaca que o aumento dos materiais patrocinados ocorre paralelamente à falta de ações eficazes da gestão municipal, liderada pela prefeita Mirella Almeida (PSD). "No ano passado, eu não vi ações de coleta de lixo. Antes havia o arrastão da limpeza, que limpava a cidade de um dia para o outro de carnaval, mas isso deixou de existir", afirma. Este ano, a Esportes da Sorte, sediada em Pernambuco, foi novamente escolhida como patrocinadora oficial do carnaval de Olinda e também do carnaval de Recife, a capital do estado.
Incomodada com a invasão publicitária das bets, a artista Catarina Aragão, conhecida como Catarina Dee Jah, decidiu usar a linguagem satírica própria do carnaval para criticar o fenômeno. Em janeiro, ela lançou o manifesto "Bet A Feia", uma referência às casas de apostas e à novela mexicana Betty, a Feia. A identidade visual, divulgada em seu Instagram, gerou um debate ético sobre a publicidade de apostas em eventos populares, devido ao potencial de vício. Poucos dias depois, Dee Jah recebeu uma notificação extrajudicial exigindo a retirada das artes, por alegada alusão à Esportes da Sorte. Com apoio jurídico, ela relançou o material após ajustes. "Eles ostentam, você se endivida. O lucro é deles, o azar é seu", diz um dos slogans criados pela artista.
Debate político e dependência financeira das agremiações
O lançamento de Bet A Feia coincide com discussões no Senado Federal, onde tramita um projeto de lei que visa proibir a publicidade de apostas, considerando os impactos na saúde pública e financeira do país. Estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública revelou que aproximadamente 11 milhões de brasileiros apresentaram características de jogo de risco ou problemático em 2023. "É necessário um debate mais aprofundado sobre a propaganda das bets, como foi feito no passado com o cigarro, porque tem um fator externo negativo", argumenta a advogada Fernanda Braga, sócia da BetFree, iniciativa voltada ao tratamento da ludopatia.
Enquanto isso, troças e blocos tradicionais de Olinda enfrentam desafios financeiros. Após a pandemia, o carnaval tornou-se mais caro devido à inflação e à necessidade de estruturas maiores para atender o aumento de foliões. "Depois da pandemia, a gente sentiu que tudo ficou mais caro porque a vida ficou mais cara", explica Sanderson Menezes, presidente da troça Menino da Tarde, fundada em 1974. Para muitas agremiações, o patrocínio de casas de apostas tornou-se uma das poucas alternativas viáveis. Mais de 20 grupos em Olinda contam com o apoio da Esportes da Sorte este ano.
Luciana Veras, uma das organizadoras do bloco Eu Acho É Pouco, fundado em 1977, ressalta que a iniciativa privada é essencial para a realização do carnaval, mas defende maior ordenamento. "Não somos contra o patrocínio. O que falta é ordenamento. Se houvesse ordenamento, seria possível haver publicidade sem representar poluição visual ou algo que ofusque a tradição", conclui. A Prefeitura de Olinda, procurada para comentar as críticas, não se manifestou sobre os questionamentos.



