Bloco 'Os Cão' mantém viva tradição centenária com lama do mangue em Natal
Na manhã desta terça-feira, 17 de fevereiro, centenas de foliões mantiveram viva uma das tradições mais peculiares e autênticas do Carnaval potiguar: cobrir completamente o corpo com lama extraída do manguezal para desfilar em cortejo pelas ruas da Redinha e Redinha Nova, na Zona Norte de Natal.
Ritual que atravessa gerações
O ritual marca a tradicional saída do bloco "Os Cão", que mais uma vez levou música, irreverência e marchinhas carnavalescas ao som de orquestra de frevo pelas ruas do histórico bairro. Fundado em 1964, o bloco foi reconhecido como patrimônio imaterial e cultural de Natal em 2021, consolidando sua importância para a identidade cultural da cidade.
Origens lendárias do grupo
De acordo com registros da prefeitura municipal, existem duas versões para o surgimento do grupo, sendo a mais difundida entre os brincantes aquela que aponta como fundadores Francisco Ribamar de Brito (Dodô), Armando Ferreira de Brito (o Gago), Francisco Clemente da Silva (Chico Baé), Francisco Valdécio (Chico do Cabo), Djalma de Andrade (Uá) e José Gabriel de Góes (Zé Lambreta).
Em meio a um momento de confraternização entre amigos, eles decidiram se "vestir" com lama do mangue e percorrer as ruas da Redinha. Ao verem os amigos completamente sujos de lama no meio da rua, moradores teriam gritado "olha os cão", dando origem ao nome que atravessa gerações e se mantém vivo até os dias atuais.
Significado cultural profundo
Esta tradição vai muito além de uma simples brincadeira carnavalesca - representa uma conexão profunda com as raízes locais, o manguezal que caracteriza a paisagem natalense e a resistência cultural de uma comunidade. A lama do mangue, longe de ser apenas um elemento cênico, simboliza a identidade territorial e a relação íntima dos moradores com seu ambiente natural.
O bloco Os Cão se destaca no cenário carnavalesco brasileiro justamente por esta autenticidade preservada, mantendo viva uma prática que remonta às origens mais espontâneas e comunitárias da festa momesca. Enquanto muitos blocos se modernizam e incorporam elementos contemporâneos, Os Cão permanece fiel à sua essência, demonstrando como tradições populares podem resistir ao tempo quando são verdadeiramente enraizadas na identidade coletiva.



