Bienal do Livro da Bahia celebra encontro histórico entre dois gigantes da literatura
A edição deste ano da Bienal do Livro da Bahia se transformou em um palco de celebração literária, unindo de forma simbólica as obras e os legados de dois mestres incontestáveis: Jorge Amado e José Saramago. O evento, que reúne impressionantes 170 autores, reflete com precisão o momento dinâmico e diversificado do mercado editorial brasileiro, abrangendo desde os clássicos atemporais até os lançamentos infantis mais recentes.
Novas vozes e temas contemporâneos conquistam o público
Entre as atrações que têm cativado multidões, destacam-se autores como Vitor Martins, cujas narrativas sobre amizade, primeiro amor, conflitos internos e inseguranças ressoam profundamente com o público jovem. "Foi através da leitura dos livros dele que eu vi, assim, uma identificação pela questão da adolescência. Num momento de tanta incerteza, eu vi uma esperança de ler algo onde eu me identificava", compartilha a estudante Sofia Midlej, encapsulando o sentimento de muitos visitantes.
O próprio Vitor Martins reflete sobre esse fenômeno: "No fim das contas, o que a gente quer quando a gente está buscando um livro, um filme, uma peça de teatro é se enxergar um pouco ali, é se colocar naquele lugar". A Bienal também serve como uma vitrine essencial para escritores independentes, como a baiana Mirian Lelis, que corajosamente divide com os leitores a dor de um caso de abuso sexual na família, transformando sua experiência em um ato de acolhimento e reflexão.
Um painel emocionante sobre amizade e admiração literária
Um dos momentos mais aguardados da programação foi o painel que reuniu Paloma Amado, filha de Jorge, e Pilar del Río, viúva de Saramago. Este encontro celebrou não apenas a memória viva dos dois autores, mas a profunda amizade que nasceu de uma admiração mútua no início da década de 1990, quando ambos já eram escritores consagrados.
"Jorge Amado, o que mais tinha na vida eram amigos, Saramago também. Saramago era mais comedido, era um homem mais tímido, mas eles se davam muitíssimo bem", explica Pilar del Río. A troca de centenas de cartas e bilhetes entre Jorge, sua esposa Zélia Gattai, Saramago e Pilar deu origem ao livro "Com o mar por meio", lançado em 2017, que documenta essa relação única.
Paloma Amado recorda com emoção a reação de seu pai, já debilitado pela doença, quando Saramago recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998: "Foi uma coisa que tirou o meu pai do torpor dele. Para mim isso é tão emocionante, aquela admiração profunda, aquele amor por um escritor tão maravilhoso que ele queria realmente que ganhasse o Nobel — e que ganhou". Este relato ilustra a conexão genuína que transcendia as páginas e se firmava no respeito artístico e afeto pessoal.
A Bienal do Livro da Bahia se consolida, assim, como um espaço onde o passado e o presente da literatura se entrelaçam, honrando gigantes do passado enquanto abre caminho para novas vozes que moldam o futuro das letras brasileiras.



