Allan Kardec é homenageado vivo no Carnaval 2026 de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco
O Carnaval de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, sempre nasceu do chão, da rua, do passo apressado atrás da orquestra e do riso solto que transforma dificuldades em alegria. É nesse território afetivo que a história de Allan Kardec Conserva se entrelaça com a própria história da festa. Aos 67 anos, ele será o homenageado vivo do Carnaval 2026, um reconhecimento a quem ajudou a manter pulsante uma tradição que atravessa gerações.
Infância entre caretas, tinta e afeto
Um dos nove filhos de Mestre Jaime, criador do tradicional Bloco da Bicharada, que completa 80 anos em 2026, Allan Kardec cresceu cercado por bonecos gigantes, máscaras e caretas. Artista plástico, seresteiro, músico e alfaiate, Mestre Jaime fez da própria casa um espaço permanente de criação, onde a arte e a folia nasciam de forma simples e coletiva. Por mais de 75 anos, ele levou alegria às ruas do município com personagens que representavam animais e pessoas anônimas, transformando o Carnaval em um espetáculo genuinamente popular.
As primeiras lembranças de Allan com o Carnaval vêm da infância, quando ainda menino ajudava o pai na confecção das máscaras. "Minha lembrança é dos 10 para os 12 anos. Ele já fazia os caretas e eu ficava mexendo nas coisas, mexendo na cola, colando papel nas máscaras. Às vezes pintava também", recorda. Era um aprendizado livre, sem regras rígidas. Mesmo quando o resultado parecia estranho aos olhos do menino, vinha o incentivo. "Teve um careta que eu pintei de vermelho, com a boca preta. Eu disse: 'Papai, esse está horrível'. Ele respondeu: 'Não, está lindo, está diferente. O povo gosta é das coisa feia'", conta, aos risos.
Dentro de casa, o Carnaval era rotina. Mestre Jaime produzia quase tudo ali mesmo, em um quartinho improvisado, enquanto os filhos observavam e participavam. Mais do que um mestre da folia, ele era um pai afetuoso. "Para mim, ele foi praticamente um irmão. Nunca bateu em nenhum filho. Ele dava conselho, mostrava como era a vida sem pancada. Era muito alegre, para ele estava tudo bom", lembra Allan. A paixão pelo Carnaval não foi imposta, mas construída aos poucos, no convívio diário com o trabalho artesanal e a certeza de que a brincadeira era também um modo de viver.
Em busca do próprio legado
Mesmo carregando um sobrenome profundamente ligado à história do Carnaval de Salgueiro, Allan construiu seu próprio caminho. Após passar cerca de três anos no Recife, onde estudou, voltou à cidade e mergulhou de vez na festa. Ainda adolescente, ajudou a fundar o Massa Real, bloco ligado ao Carnaval de clube, que exigia organização, arrecadação e responsabilidade coletiva. "A gente fazia cota para comprar instrumento, tinha disputa de fantasia, arrecadava dinheiro para comprar roupa. Não era só brincar, tinha trabalho", explica.
Anos depois, mais maduro, veio a criação do Pé na Cova, bloco fundado há cerca de cinco anos e que hoje se consolida como símbolo de resistência do Carnaval de rua em Salgueiro. "O Pé na Cova ainda mantém a tradição. A gente sai com banda de música, faz camisa para arrecadar dinheiro, começa pequeno e vai crescendo", afirma. O crescimento é visível: de cerca de 20 ou 30 pessoas no início, o bloco chegou a vender 200 camisas neste ano. O estilo de Allan é diferente do irmão, Jaime Concerva (Jaiminho), que atua mais nos bastidores da construção dos bonecos. Ele prefere o contato direto com o povo. "Meu negócio é estar na folia. Quando o bloco sai, eu saio atrás, correndo, brincando", diz.
Um Carnaval que insiste em resistir
A escolha de Allan como homenageado vivo do Carnaval 2026 veio como surpresa. "Quando anunciaram, eu pensei que era brincadeira. Quando subi no palco, só consegui dizer 'muito obrigado'. A mente travou", lembra. O carinho do público revelou a dimensão do reconhecimento. "Todo mundo bateu palma, levantou das mesas, veio me abraçar. Eu não esperava tanto assim." Apesar da homenagem, Allan faz questão de colocar o pai em um patamar único. "Eu acho que não chego nem perto do que ele foi. Mestre Jaime foi um ícone. Ele eternizou o Carnaval de Salgueiro", afirma.
Ao olhar para o presente, ele reconhece as transformações da festa. Sente falta do frevo dominando as ruas, das bandinhas acessíveis a todos. "Antigamente o Carnaval era no chão. Hoje é muito palco. Antes você não precisava de nada para acompanhar uma orquestra". Para ele, a mudança reflete novos tempos e novas gerações, e é preciso aceitar, mas sem esquecer a raiz. Essa continuidade também se expressa na família. Allan é pai de três filhos e avô de cinco netos, todos envolvidos com a folia. "Eles adoram o bisavô. Participam, ajudam, perguntam quando vai ter bloco. Vão no mesmo caminho", conta animado.
Em 2026, ao homenagear Allan Kardec, Salgueiro celebra mais do que um nome. Celebra uma história feita de rua, afeto e resistência cultural. Um legado que não está apenas na memória, mas vivo, pulsando, seguindo atrás do bloco, exatamente como sempre foi o Carnaval da cidade.



