Tour de France tem escapado por pouco de tragédias por calor extremo, alerta estudo científico
O Tour de France, uma das competições de ciclismo mais prestigiadas e conhecidas do planeta, tem contado com a sorte para evitar tragédias de saúde causadas pelo calor extremo, conforme revela um estudo publicado na revista científica Scientific Reports. A pesquisa analisou dados climáticos de mais de 50 edições da prova, entre os anos de 1974 e 2023, e chegou a uma conclusão alarmante: o risco de estresse térmico tem aumentado de forma constante, especialmente na última década.
Margens mínimas separam evento de condições perigosas
O estudo, liderado pelo Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento Sustentável da França, alerta que o evento tem escapado de condições de risco máximo por margens extremamente pequenas — em alguns casos, por apenas alguns dias de diferença ou décimos de grau na temperatura. "O calor provoca vasodilatação periférica, deixando a pele mais rosada e podendo causar tontura transitória ao levantar, devido a uma queda momentânea da pressão arterial", explica Paulo Saldiva, professor da Universidade de São Paulo e membro titular da Academia Brasileira de Ciências.
Saldiva detalha ainda que "também há redução de hormônios como adrenalina e cortisol. O corpo responde de forma automática e consciente ao calor, mecanismos moldados pela seleção natural. Esse estresse térmico provoca uma perda de volume de eletrólitos que pode superar a reposição que ocorre durante a prova".
O que é o Índice de Estresse Térmico?
O estresse térmico ocorre quando o corpo humano é exposto a temperaturas extremas, principalmente ao calor intenso, e não consegue se resfriar adequadamente para se manter nos 36,5 °C — temperatura ideal para o funcionamento do organismo. Para avaliar esse fenômeno, utiliza-se um índice bioclimático que analisa não apenas a temperatura, mas também o conforto fisiológico do corpo diante de condições específicas como:
- Calor
- Umidade do ar
- Vento
- Índice de radiação
Desafio global para o esporte de elite
O estudo utiliza o Tour de France para ilustrar um desafio que afeta todo o esporte de elite durante o verão, incluindo federações internacionais como a FIFA. O calor excessivo não prejudica apenas o desempenho atlético, mas oferece riscos graves à saúde de atletas, funcionários dos eventos e espectadores presentes.
De acordo com Paulo Saldiva, com as mudanças climáticas acontecendo em uma velocidade sem precedentes, os protocolos de segurança precisam ser urgentemente revistos. "Hoje, não existe um padrão universal de segurança, isso ainda precisa ser construído", afirma o especialista. "Há um consenso de que, em provas realizadas em situações de calor extremo, é necessário adotar medidas de segurança. Mas a forma de aplicar essas medidas depende das características de cada esporte e das decisões de cada entidade esportiva".
Impacto no contexto brasileiro
Embora o estudo tenha foco no cenário europeu, os pesquisadores ressaltam que o aumento das temperaturas representa um desafio global para a organização de qualquer evento esportivo de verão, especialmente no esporte de elite. No contexto brasileiro, competições tradicionais como a Corrida Internacional de São Silvestre ilustram essa preocupação.
Realizada no auge do verão brasileiro, a prova já teve seu horário deslocado para o período da manhã justamente para mitigar o desgaste físico dos participantes. No entanto, o estudo alerta que, com o avanço das mudanças climáticas, mesmo as manhãs podem deixar de ser seguras, pois níveis elevados de estresse térmico têm persistido por períodos mais longos.
No ciclismo profissional, como no Tour de France, carros de apoio podem fornecer glicose ou outras fontes de energia que os atletas necessitam durante a prova. Já na Corrida Internacional de São Silvestre, o problema, segundo Paulo Saldiva, é que "embora exista um pelotão de elite com preparo e treinamento fisiológico adequados, também participam milhares de pessoas que correm para celebrar o Ano-Novo e tentar fazer o melhor possível, muitas vezes sem a devida assessoria, diferente dos atletas de elite".
O que é o Tour de France?
O Tour de France é uma das corridas de ciclismo mais tradicionais do mundo e a mais antiga das três principais competições ciclísticas europeias com duração de várias semanas, conhecidas como Grandes Voltas. Os ciclistas percorrem cerca de 3.500 quilômetros de distância e sobem até quase 55 quilômetros de altitude acumulada ao longo de 21 etapas extenuantes, com apenas dois ou três dias de descanso durante toda a competição.
A pesquisa serve como um alerta importante para organizadores de eventos esportivos em todo o mundo, destacando a necessidade urgente de desenvolver protocolos de segurança específicos para condições de calor extremo, que se tornam cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas em curso.



