Sylvinho, o brasileiro que virou herói nacional na Albânia e sonha com a Copa
Com desenvoltura e afinação, o treinador brasileiro Sylvio Mendes Campos Júnior, conhecido como Sylvinho, de 51 anos, fez a plateia aplaudi-lo de pé ao entoar My Way, clássico na voz de Frank Sinatra, durante a cerimônia de premiação dos melhores do futebol da Albânia, em janeiro de 2025. Naquele momento, ele já havia colocado a seleção do Leste Europeu na Eurocopa e começava a trilhar o caminho que poderia levar os kuqezinjtë (rubros-negros) para a repescagem da Copa do Mundo de 2026.
Da fama inesperada ao reconhecimento oficial
Recebido pelo primeiro-ministro Edi Rama, que o condecorou com a prestigiada láurea Águia de Ouro, Sylvinho tornou-se uma verdadeira celebridade no país que, até o início da década de 1990, viveu sob regime comunista. "Em muitas ocasiões, estou jantando com minha mulher e, na hora de pagar, a conta já foi coberta por algum fã", revelou o técnico em entrevista. A fama do brasileiro nas terras albanesas só encontra paralelo nos tempos em que João Amazonas, antigo secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, era aclamado pelas ruas durante o governo de Enver Hoxha.
Dois nomes da Albânia são hoje conhecidos internacionalmente: Sylvinho e a cantora Dua Lipa. O treinador ri da comparação com humor característico: "Não dá nem para comparar, porque não tenho a voz dela", reconhece. "Mas vou dizer: nunca fui tão bem tratado num país; o povo albanês é muito generoso."
Superação após tempos difíceis no Brasil
A travessia bem-sucedida fora do Brasil representa quase uma resposta aos momentos desagradáveis que Sylvinho viveu em sua terra natal após encerrar a carreira de jogador em 2010, mesmo com passagens de destaque por Barcelona e Manchester City. No Corinthians, entre 2021 e 2022, enfrentou períodos complicados com um time limitado e resultados abaixo do esperado — apesar do carisma que conquistava a torcida, muitas vezes empolgada, mas quase sempre desesperançosa.
Chegou à equipe alvinegra paulista após três anos como auxiliar de Tite na seleção brasileira, entre 2016 e 2019. Contratado pela Albânia em 2023, embarcou na aventura com expectativas modestas — e obteve sucesso além do imaginado.
Imersão cultural e desafio histórico
Decidido a mergulhar profundamente na cultura do país, Sylvinho mudou-se com a família para a capital Tirana, acompanhado por sua comissão técnica formada pelo ex-volante Doriva e pelo ex-lateral argentino Pablo Zabaleta. Arrisca algumas palavras no idioma local, mas comunica-se principalmente em inglês, tanto nas ruas quanto durante os treinos.
Consciente de estar vivendo o auge de sua carreira e uma oportunidade rara, o técnico sente o peso das expectativas que pairam no ar. "Há muita expectativa, porque pela primeira vez a Albânia tem a chance real de chegar à Copa", afirma. O feito histórico transformaria Sylvinho em herói nacional, embora os desafios sejam evidentes.
O caminho para a Copa do Mundo
No final de março, a Albânia enfrentará a Polônia em Varsóvia pela repescagem. Se vencer, duelará com Ucrânia ou Suécia — e garantiria então a vaga para o Mundial que será realizado simultaneamente nos Estados Unidos, México e Canadá. Caso classificada, a equipe entraria no Grupo F da Copa, ao lado de Holanda, Japão e Tunísia.
"Seria hipócrita se dissesse que não vi o sorteio, pensando nos próximos passos", admite Sylvinho. "Mas, por enquanto, penso apenas na Polônia." Os albaneses, permitindo-se sonhar, acreditam ser possível transformar a terra das águias em uma zebra capaz de superar seleções europeias tradicionais.
Quem sabe, se tudo der certo, Sylvinho não leve novamente a filha Taty Mendes pelos braços para subir o tom e, mais uma vez, declarar que fez tudo ao seu modo, como ensinou Sinatra. Viva a Albânia de Sylvinho, a 63ª colocada no ranking de seleções da Fifa, que hoje tem um pedaço do Brasil comandando seus sonhos futebolísticos.



