Justiça de São Paulo valida acordo após caso de xenofobia no futebol
A Justiça de São Paulo aceitou formalmente um acordo celebrado entre o Ministério Público e o jogador paraguaio Damián Bobadilla, atleta do São Paulo Futebol Clube. O acordo foi firmado na quarta-feira, 11 de março de 2026, e põe fim ao processo que se seguiu após o atleta ter proferido ofensas xenofóbicas contra um adversário durante uma partida da Copa Libertadores da América no ano anterior.
Medidas educativas e compensatórias são estabelecidas
Pelo acordo, Bobadilla se compromete a cumprir uma série de medidas educativas e compensatórias. Ele deverá assistir a aulas específicas sobre xenofobia e, posteriormente, gravar quatro vídeos, cada um com aproximadamente dois minutos de duração, nos quais explicará, com suas próprias palavras, o conteúdo assimilado em cada aula. Além disso, o atleta se comprometeu a realizar uma visita ao Museu da Imigração, localizado na capital paulista.
Outra obrigação estabelecida é a publicação de quatro postagens contra a xenofobia em suas redes sociais, com uma frequência de uma publicação a cada trinta dias. O conteúdo dessas postagens deverá ser previamente aprovado pelo Ministério Público. Como medida compensatória, Bobadilla terá de doar a quantia de R$ 61 mil em livros para a Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente.
Caso o jogador cumpra integralmente todas as obrigações estabelecidas, o processo será encerrado sem a instauração de um processo criminal. O acordo foi considerado viável porque Bobadilla confessou formalmente a ofensa, e o caso atende aos requisitos legais para um acordo de não persecução penal, conforme previsto no Código de Processo Penal. O crime em questão não envolveu violência ou grave ameaça, possui pena mínima inferior a quatro anos, e o investigado é primário, sem histórico de prática criminosa.
O incidente que motivou o acordo
O caso ocorreu em maio de 2025, durante uma partida válida pela Copa Libertadores entre São Paulo e Talleres, realizada no Estádio do Morumbi. Na reta final do jogo, vencido pelo time paulista por 2 a 1, Bobadilla e o jogador venezuelano Miguel Navarro, do Talleres, se envolveram em uma discussão. Navarro denunciou publicamente ter sido vítima de um ato de xenofobia por parte do paraguaio, que o teria chamado de "venezuelano morto de fome".
A situação foi tão grave que Navarro começou a chorar em campo, levando o árbitro chileno Piero Maza a interromper a partida por alguns minutos. Colegas de equipe e adversários se aproximaram para consolar o jogador venezuelano antes que o jogo pudesse ser retomado.
Logo após a partida, Navarro manifestou-se em suas redes sociais, afirmando: "Vou até as últimas consequências diante do ato de xenofobia que vivenciei no Brasil pelas mãos de Damián Bobadilla". Por sua vez, Bobadilla também se manifestou nas redes sociais, inicialmente alegando ter sido tratado com desprezo, mas posteriormente reconhecendo que "agiu mal" e pedindo desculpas publicamente.
Posicionamentos institucionais
O São Paulo Futebol Clube, procurado para se manifestar sobre o acordo, ainda não havia se pronunciado até o momento da publicação desta matéria. Na época dos fatos, o clube emitiu uma nota afirmando que iria colaborar "integralmente com as investigações em curso" e que "repudia veementemente qualquer manifestação de discriminação, preconceito ou intolerância, seja ela de natureza racial, étnica, nacional ou de qualquer outra forma".
O advogado do jogador, Pedro Gricoli Iokoi, também não se manifestou até a conclusão desta reportagem. Damián Bobadilla joga no São Paulo desde 2024 e é filho do ex-goleiro da seleção paraguaia Aldo Bobadilla.
Este caso destaca a gravidade com que a Justiça brasileira tem tratado episódios de discriminação no esporte, optando por medidas educativas e reparatórias que visam não apenas punir, mas também promover conscientização e mudança de comportamento.
